Júlio Resende e a Orquestra Clássica do Centro, fim de Verão cultural em Cantanhede

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File-0069-pobra de Júlio Resende exposta em Cantanhede; “Mulher e Tecidos”, pastel, 2000, 65 x 51 cm

publicado no Diário de Coimbra no dia 15 de Setembro de 2005

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Nada melhor que um pedaço de tarde com nuvens frescas abrindo clareiras no azul do céu, debaixo da larga copa de um monumental pinheiro manso para reentrar, neste fim de Verão, numa coisa de que afinal nunca havíamos saído: a alegria da arte e a essência incomparável da música.
A totalidade deste conjunto de sensações desenrolou-se no Jardim do Museu da Pedra e culminou a abertura de uma exposição de Júlio Resende inaugurada na Casa Municipal da Cultura, tudo em Cantanhede no dia 10 de Setembro último.
Para os amigos da pintura e da arte portuguesa ou seja, da arte universal, Júlio Resende é uma figura que se persegue em continuidade de interesse e prazer estético ao longo de toda uma longa vida produtiva. As memórias de episódios criativos são inumeráveis, e basta-me por agora mencionar o prazer que tenho tido em visitar o “Lugar do Desenho” em Gondomar, fundação que tem o nome do artista.
Instalada numa ladeira sobranceira ao Rio Douro é local cuja visitação recomendo sem reservas, por um variado conjunto de razões que não cabem no espaço desta crónica.

Promover a Arte com sentido de projecto

Há muitas formas de gerir meios de promoção cultural e artística. Poderá haver quem julgue que tudo vai dar no mesmo e o que é preciso “é boa vontade” e desejo de “apresentar serviço”.
Já tenho dito nesta coluna, de muitas e variadas formas, que não é indiferente o modo como tal trabalho é feito, não devendo confiar-se a acasos descontínuos o aproveitamento de conteúdos assimétricos, improvisando e facilitando formas de dar a ver, meios de apoio documental, etc.
Sem poder falar de todo o conjunto de iniciativas que têm lugar em Cantanhede, porque não tenho ido ali tão frequentemente quanto desejaria, devo contudo afirmar que, como várias outras, também as presentes realizações me dão a ideia de um labor estruturado com bom gosto evidenciando, além do mais, uma generosidade comunicativa e pedagógica que me parece ser ideal para um trabalho com vocação de futuro.

Um músico fala com olhos de quem também pinta

Virgílio Caseiro, que regeu a Orquestra Clássica do Centro no concerto que teve lugar, para prazer de todos, depois da inauguração da exposição, também visitou a pintura e repartiu impressões que lhe mereceram as obras expostas.
Falámos sorrindo da aparente simplicidade de algumas das peças, e daquela suposição absurda que muita gente assume: “olha, uma coisa destas, também eu fazia”…
A verdade das coisas, porém, não é assim tão simples. Nem a vastidão assustadora do suporte se preenche de levezas subtis sem que a mão do artista esteja animada de gestos com asas, nem os materiais usados se dispõem por si só, com mágica e automática clarividência.
Aquelas duas telas justapostas que o artista pintou com pigmentos retirados da “paisagem” cabo-verdiana são o exemplo da “transcendência de facilidade” que há em sugerir horizontes, precipícios, céus e anónimos objectos da natureza, a partir do gesto mais aparentemente simples, na economia de processos que só um pássaro demonstra ao voar alegremente acrobacias, ou uma onda quando negligente exibe formatos ao estender-se pela areia da praia.
O simpático livro que é editado para valorizar adequadamente o acontecimento distingue-se de certas pagelas ou calhamaços de deitar fora, ornados com pouco mais que o texto oportunista desta ou daquela individualidade autárquica.
Pelo contrário, neste caso, é o próprio artista que nos confidencia as suas impressões e percepções estéticas, em “visita guiada” a cada uma das obras expostas.

Resende colorista, da aguarela ao óleo, até à tapeçaria

O título da mostra é “Resende, uma vida de cor”, facto que acentua uma das principais facetas dos trabalhos apresentados: o tratamento livre e desmistificado (como o autor refere à entrada do mesmo livro) de traços e manchas de teor cromático através dos mais diferenciados meios de registo, muitos deles não mais do que sinais em confronto livre, que dão a entender, não obstante, a transcendência dos valores construtivos de todo o universo das artes plásticas, nas disciplinas expressivas de agora e de todos os tempos.
Obras de Júlio de Resende na Casa Municipal da Cultura de Cantanhede, até 27 de Novembro.

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