Um painel de azulejos para as terras do fim do mundo

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fragmento do painel aqui referido

 

Publicado no Diário de Coimbra de 12 de Abril de 2005

O meu amigo Ernesto Insua tem o privilégio de viver mesmo ao pé do fim do mundo. É galego de Finisterra, e assume com sentimento e sensibilidade cultural o facto de ser duma região cujo nome traz memórias de tragédia e assusta o visitante que não conhece a sumptuosa paisagem e a paz das suas enseadas de mar adentro: é a Costa da Morte!…
Lugar de muitos mistérios vividos e de muitos outros inventados comunga desse património lendário dos sítios dos quais se diz que ali a terra acaba e o mar começa. Quando ainda não se tinham consolidado fronteiras nesta parte da Europa, foi ali porta de entrada de santos e piratas, invasores ferozes e muitos viajantes marinheiros.
Do concreto conhecimento que Ernesto tem de Portugal, uma coisa lhe prendia a atenção: na sua terra não havia ainda ninguém que se tivesse lembrado de mandar executar um painel de azulejos, esse jeito tão nosso de revestir paredes e cativar imaginários.
Foi em conversas de serão que surgiu a ideia de fabricar essa última coisa que não havia ainda no seu acolhedor hotel rural, finamente instalado em residência antiga de família.
O painel era para uma parede de pedras de granito à ilharga do belo jardim, no extremo dum pórtico, virado para o poente ou seja, para o lado do grande cabo que assinala o fim das peregrinações, sítio mágico de onde se vê o Sol mergulhar no mar longínquo.
Ernesto foi idealizando o seu imaginário painel e eu tomando notas, sem me importar se iria ser possível ou não colocar lá todos esses fins do mundo, essas figuras e céus testemunhas de tanta lida e tanto querer.
Meses depois, com cartas e visitas pelo meio, vejamos então o que já lá está, para durar anos e anos, colocado na parede e olhando para todos os hóspedes e visitantes:
O elemento central é uma rosa dos ventos, objecto simbólico distribuindo o nosso olhar em direcção a quatro paisagens de outros tantos “fins da terra”: Cabo da Roca em Portugal, Lands End na Cornualha, La Pointe du Raz na Bretanha, e o Cabo Finisterra, ali ao pé, na Galiza.
Ao centro, num globo terrestre, aparece a visão distante e sugestiva “do outro lado do mundo”, sonho e destino de vida de tantos milhares de galegos: o continente americano.
À esquerda, em cima, o “painel do peregrino” ostenta a concha de vieira como referencial simbólico, dá-nos conta da proximidade e convivência entre o mar e a serra que o país galego tão abundantemente nos oferece, e da sua enorme componente rural de que o “hórreo” é um adereço insuperável.
No lado superior direito, pairam acima de Land’s End desenhos inspirados na arte rupestre galega, sinais antiquíssimos que sugerem barcas e seres que entendi inscrever no céu, à distância das coisas mágicas e indecifráveis que estão na mais remota memória dos homens.
Em baixo, de ambos os lados da Pointe du Raz, alusões à fauna marítima no seu espaço submarino e à presença das mulheres como protagonistas fundamentais do hercúleo combate travado entre mar e homens na conquista do sustento diário.
Aparece também o indispensável perfil duma traineira que, por sinal, também faz parte do meu imaginário infantil, vivido muito perto do litoral com barcos, mar e pescadores à vista.
Como envolvente dessa variedade de temas foram utilizados grafismos inspirados na arte Celta, cultura referível às áreas geográficas desses quatro grandes Cabos. Isto, em jeito de cercadura, elemento presente em grande quantidade de painéis de azulejos, agora utilizado de forma muito livre, para aglutinar ideias de difícil conciliação visual.
A tradição do azulejo artístico português está pois, a partir de agora e por obra minha, presente em Finisterra, por decisão de um galego amigo e conhecedor das tradições culturais da nossa terra.
Honra seja feita a Ernesto, galego das sete partidas que já foi às Américas vezes sem conta mas que não deixa de olhar Portugal com carinho e atenção de todas as vezes que o visita!…

0016 ab (6) p
outro fragmento

 

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