ARCO 2005, crónica duma peregrinação anunciada

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Obra de António Segui, exposta na ARCO 2005

Publicado no Diário de Coimbra de 23 de Fevereiro 2005


Para os interessados nas artes, com maior ou menor nível de envolvimento profissional, há um fenómeno que tem adquirido nos últimos vinte anos, como nenhum outro, o carácter de acontecimento altamente interessante e, por isso, frequentável.
A ARCO, feira das artes de Madrid, lá pelos inícios de Fevereiro de cada ano, recebe a visita regular de um contingente numeroso de portugueses que, envolvidos na multidão de outros visitantes, ali vão dar fé de “como vão as artes”, de quais são “as modernas tendências” e do que é que “está a fazer-se lá fora”.
A cidade de Madrid, com uma enormidade de recursos variados, sempre cobre as eventuais insatisfações que o acontecimento em si possa suscitar, explorável de modo superficial no decurso de uma só tarde muitíssimo fatigante.
Tratando-se de uma feira, por isso com intuitos mercantilistas, não deixa de evidenciar um imenso apoio institucional, o que se harmoniza bem com a invulgar energia que os espanhóis colocam nas suas organizações.
O certame, como justaposição de galerias de todos os géneros e proveniências, oferece um caleidoscópio confuso e excessivo de experiências as mais desencontradas, convivendo em dois largos pavilhões obras dos autores mais consagrados com outras de cuja real valia temos todo o direito de duvidar.
Gozando do privilégio de poder fotografar ou filmar todo e qualquer objecto exposto, tem ainda acesso o visitante a editores de obras de carácter artístico, além de representações institucionais como departamentos de cultura de diversas autonomias espanholas, etc.

A ARCO, um marco que se afirma no “nosso” horizonte cultural

Ao fim de vinte e tal anos de participações portuguesas (o que corresponde à atribuição de subsídios de parte do estado, em condições cujo detalhe desconheço) julgo que era tempo de começarmos a ver também resultados, ecos ou aproveitamentos activos de definição e reforço de um comércio artístico de iniciativa própria.
Têm surgido, e são conhecidas, certas iniciativas ao longo de todos estes anos, ao nível de Lisboa e Porto principalmente, nenhuma contudo do género e da pujança que é patente na ARCO, nem ostentando o grau de continuidade que a mesma tem afirmado.
Não haverá entre nós interesse que justifique alguma dedicação a assuntos deste tipo?
Existirá ou não alguma conveniência em estruturar um mercado das artes autónomo, pronto estimular e satisfazer inclinações, carências e aspirações que nos são próprias?

Um interesse artístico que apenas sobrevive

Segundo referências mais que evidentes é abundante o número de agentes artísticos interessados em adornar o seu curriculum com uma presença na ARCO, onde coleccionadores portugueses vão para adquirir obras de artistas nossos e em galerias da mesma nacionalidade.
O facto denuncia, a nível da iniciativa privada, que o nosso meio não é capaz de gerar suficiente dinamismo para pôr em marcha as suas potencialidades, que um simples ensejo de compra “lá fora” começa a gozar de certo apelo e constitui teor de certificação de qualidades que entre nós ninguém ousa, ou deseja, ou pode colocar em evidência.
A nível das instituições públicas de intuito cultural, a despeito de alguns acontecimentos de êxito incontestável cuja ocorrência é mais excepção que regra (referíveis geralmente a individualidades de percurso ou nacionalidade estrangeira) o calendário nacional preenche-se de inumeráveis realizações heterogéneas, prejudicadas no seu todo por uma descontinuidade de critérios expositivos, longe de esquemas programáticos capazes de formar novos públicos e de mobilizar o interesse dos apreciadores já consolidados.
Em muitas outras circunstâncias não está o interessado visitante livre de se encontrar em salas vazias tocadas por vícios de hermética incomunicabilidade, palco de dignidades mais ou menos solenes detentoras do privilégio duma intocável auto-suficiência.
A esse respeito interessaria conhecer de forma clara qual o nível de aproveitamento de todo esse funcionalismo cinzento metalizado, quais os seus critérios de valor e qualidade estética, qual o seu sentido de futuro, de projecto cultural, etc.
Se ninguém persistir na colocação destas perguntas, como poderá ganhar significado e produzir resultados o interesse artístico que apenas sobrevive entre nós, mas de modo disperso, confuso e improducente?
Se não forem jamais respondidas tais questões quem é que vai livrar-nos desta solidão, deste sentimento de andar sempre a correr em círculos?
Ficaremos assim para sempre, a ir cada vez mais, uma vez por ano, às ARCOS?

ASeg“El Palo Sagrado” de Antonio Segui

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