Os painéis cerâmicos de Querubim Lapa nos Hospitais da Universidade de Coimbra

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083-pPainel de azulejos relevados de Querubim Lapa, “Os Sete Espelhos de Narciso”, 187 x 127,5 cm, exposto em 1994 no MNA

NOTA: Mesmo nos edifícios públicos pagos por todos os contribuintes, com obras de arte que deveriam ser de usufruto aberto a todos os cidadãos, impera um sentido de propriedade privada que impede os mesmos cidadãos de colher imagens das obras de arte expostas. Já fui incomodado várias vezes ao tentar documentar-me para efeito de prazer pessoal ou de divulgação absolutamente gratuíta como é aquela que aqui faço. A obra acima colhi-a num catálogo de uma exposição que comprei no Museu do Azulejo. Nada tem a ver com o painel dos Hospitais da Universidade de Coimbra porque não ousei enfrentar os seguranças ali presentes e também porque não estava disposto a percorrer o calvário da burocracia feito pedinte de imagens. Já agora, aos visitantes desta notícia, sugiro que coloquem no vosso “browser” a expressão “hospitais da universidade de coimbra, paineis de querubim lapa”. É só uma pesquisa exploratória. O que é que aparece? Os painéis de Querubim Lapa dos HUC? NÃO!… O que aparece, além de muitas e desvairadas imagens de que é fértil a net, e em primeiro lugar, ESTA MESMA IMAGEM que eu coloquei já há muito nesta notícia; A ÚNICA QUE EXISTE NA NET sobre os painéis de Querubim Lapa ali presentes!… Acham que é preciso acrescentar mais alguma coisa???…

 

Publicado no Diário de Coimbra de 27 de Dezembro de 2004

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Vistos já certamente por milhões de pares de olhos, bem merecem uma cuidada inscrição no mapa das nossas referências estéticas para Coimbra do sec. XX..
O autor é um artista excelente no panorama das artes plásticas do seu tempo, com preparação académica em pintura e escultura, com uma notável actividade pedagógica na área das artes do fogo e com um estruturado talento que lhe permitiu afirmar-se como desenhador, pintor, escultor e ceramista. É esta a disciplina que mais notoriedade lhe granjeou, não figurando no grupo dos pintores que apenas concebem e projectam obras de arte cerâmica.
Querubim, mais do que isso, afirma-se como executante, intervindo directamente na produção dos trabalhos de sua autoria que atingem um nível de expressão invulgarmente rico e original. Daí que tenha conseguido o acesso a facilidades técnicas notáveis, em meio fabril, mediante as quais pôde conduzir larga actividade experimental.
Uma imensa produção de objectos cerâmicos de todo o tipo, moldados de acordo com as suas determinações, são depois recobertos pelo artista com esmaltes cuja cozedura produz o efeito mais feérico e surpreendente que é possível neste domínio de expressão plástica. Uma das propriedades desses esmaltes, vertidos sob forma líquida, é a de reagirem entre si, produzindo inesperados efeitos de cor, que o artista utiliza com especial maestria.
Quanto ao revestimento parietal essa técnica designa-se da “cerâmica relevada”, e representa uma modalidade artística que oscila entre o relevo e a forma escultórica, muitíssimo mais requintada e dispendiosa que a dos mais modestos quadriláteros cerâmicos pintados a pincel com cores lisas a que chamamos azulejos.

Os esmaltes cerâmicos e os mistérios do corpo

As placas rectangulares que compõem o extenso painel que se encontra no átrio principal dos Hospitais da Universidade de Coimbra, não sendo azulejos clássicos de cores planas, também não são classificáveis na categoria do revestimento cerâmico relevado.
Evidenciam, é certo, acentuações relevadas separando as diversas zonas de cor ou reforçando a perceptibilidade de certos grafismos, oferecendo por isso uma plasticidade enriquecida e aproveitando muito bem a penetração de luz exterior naquela área do edifício.
Concebida para ser contemplada desde o momento de entrada no vasto espaço em que se encontra, a obra apresenta na zona central uma sugestão das estruturas internas do nosso corpo, conferindo acentuada monumentalidade a detalhes orgânicos que têm tudo a ver com a misteriosa vulnerabilidade de que somos feitos. As largas avenidas por onde transita o sangue, os mais recônditos alvéolos pulmonares até aos quais o ar é incessantemente inspirado, produzindo depois, através de faringes, larínges e traqueias, o milagre da voz, a aflição de um grito e o mistério encantado ou funesto de um gemido.
De cada lado desse núcleo aparecem alguns rostos mergulhados numa indeterminação de branco e azul, porventura sugestiva do intervalo doloroso que a enfermidade abre na vida daqueles que entram no Hospital, esperando, na bondade da ciência, socorro na aflição ou alívio no sofrimento.
As proporções da obra, a sua distribuição ao longo de uma superfície articulada e o carácter plástico do material de que é composta libertam-na, de certa forma, da necessidade duma análise de conjunto, o que ajudará a mole de visitantes a procurar na obra o melhor que ela tem para lhes dar ou seja, um certo ar festivo e optimista que é reforçado pela luz intensa das melhores horas do dia.
É nas bandas inferiores e laterais da composição que vai sendo esquecida a disciplina de figuração temática a que a obra se sente vinculada, afirmando ali a expressão mais personalizada do universo do autor.

O painel de Querubim Lapa carece de… intervenção cirúrgica!…

Causa um certo desgosto ver uma obra tão importante, numa cidade onde não abundam os sinais da presença de artistas do nosso tempo detentores do perfil excelente que é Querubim Lapa, de tal forma afectada por contingências da superfície de suporte e das técnicas utilizadas na sua instalação.
Não é preciso ser especialista para notar a abundância de cicatrizes que retalham a obra ao longo de toda a sua extensão. Aqui e ali também são visíveis acções “de restauro” que não ajudam à melhoria nem técnica nem estética do seu estado de “saúde”.
Os painéis deste tipo devem ser aplicados com argamassas de certa elasticidade que possam neutralizar as tensões mecânicas sofridas pelas paredes de suporte. Mesmo que tais efeitos ocorram, as fissuras ocasionais apenas se reflectem ao longo das linhas de separações das unidades cerâmicas, que podem depois ser recolocadas após adequadas ações de restauro.
Segundo o que sei da melhor fonte, contudo, a recuperação deste magnífico conjunto está muito a tempo de fazer-se, restando esperar que bons olhos o vejam e que se coloquem mãos à obra nos cuidados intensivos de que tão urgentemente necessita. E nunca melhor dito, atendendo ao local onde se encontra!…

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