Jemima Stehli e Pedro Cabrita Reis no CAV

Publicado Diário de Coimbra  13 de Fevereiro de 2004

Regresso a casa de mais uma visita ao CAV nesta tarde de ameno inverno que envolve na luz as mais desencontradas ilusões dum quotidiano ferido por vulgaridades atrozes e contingências que só o tempo resolverá, na sua incessante máquina de reproduzir instantes. Manuseio com prazer o material de apoio estético que trouxe comigo, resultante do esmero habitual da instituição. Resisto à tentação de mergulhar já na contemplação do livro branco que guarda o segredo de Jemima Stehli, a carne “cromogénica”, a epiderme feminina em “gelatina de prata” e o “velcro” em “plexiglas”.

Dos pátios com vocação lírica à insignificância dos críticos

Para já, o átrio exterior e as “Longer Journeys” de Pedro Cabrita Reis. Quando vi no jornal a primeira foto de divulgação da obra, mostrava-se a mesma num espaço interior, quase exíguo, de paredes de tijolo maciço e tecto de travejamento em madeira, soturnamente evocativo duma atmosfera fechada na humidade do silêncio. “Onde ela ficava bem era no pátio do CAV”, pensei de mim para comigo! E ela ali está, de facto, para benefício de quem visita, acrescentando valor ao sítio, “projectando-o”. As proporções humanizadas daquele quase recinto de teatrais enredos conferem à estrutura a sugestão interminável de pórticos sobrepostos, como se se tratasse de encenação operática ou labirinto para ritmados desencontros. Aquilo que o trabalho de Cabrita Reis foi de nave luminosa no espaço fechado, transforma-se ali numa sugestão de mergulho no firmamento, sobretudo se tivermos, como eu, a sorte de visitar aquele espaço à hora final da tarde em que mais hesitante e colorida é a luz que rodeia o mundo. Afirma PCR que “…A arte tem a ver com questões e nunca com declarações” e isso é algo que não vou aclarar, posto que o leitor melhor saberá fazê-lo que eu próprio já que, como bem afirma Barry Schwabsky no seu texto sobre Jemima Stehli “Só um louco tomaria um crítico de arte como uma autoridade em qualquer assunto…”

O interminável corpo da mulher

À parte a presença, pateticamente irrisória dos co-figurantes de algumas das obras propostas por JS (ou exactamente “por causa” dessa presença intencionada…) o corpo da artista erige-se em monumento ao acto fotográfico, não deixando contudo de nos embalar na evidência carnal e trágica que consigo transporta. É curioso que só às co-figurantes tenha sido conferida a gravidade problematizante da nudez . Como se aqui a nudez de pé fosse um privilégio de mais segura eternidade, e o riso equívoco de homens sentados o passaporte para uma relativa dignidade, redutora e burocrática. Como é monumental e decidida a figura perpendicular de JS, vestida ou nua, em paralelo, deixando para trás a superfície branca da tela de fundo! Como é literária e pictórica nas fotos coloridas, em movimento ou desconcerto posicional se em fundo vermelho! Grace e Karen são empurradas até nós num quase perturbável “exagero de proximidade” pelo esplendor tecnológico-fotográfico dos laboratórios londrinos. Nessas duas situações JS “apaga-se” numa surda presença oficinal, sendo apenas evocada  na semelhança longilínea das duas mulheres figuradas, ambas escorreitas e de bem marcada genitalidade, como ela própria. O “Strip” da artista frente às personalidades sentadas é impiedosamente ruidoso, sinalizando mais do que evidenciando as contingências do mostrar dúbio, convencional e estratégico, não se esgotando nisso uma variedade de outros aspectos do conjunto de fotografias que nos é mostrado.

Project rooms, o futuro e o juízo rigoroso

Nas minhas andanças de pintor sempre ouvi dizer aos meus críticos mais lúcidos e pertinentes que a obra é que conta, e só ela, para a ponderação do seu valor intrínseco. A explicação, o enredo, os preâmbulos que a respeito da obra possam ser aduzidos em nada contam, e nada pesam a favor ou desfavor da dita. A esse respeito muito caminho terá de andar a arte contemporânea para que transponha o portal das suas importantes intenções, se não corporizar de forma universalizante o teor dos seus conteúdos. O esmero estético das obras de Catarina Felgueiras e Nuno Ramalho, e o impacto problematizante de que se revestem alguns dos seus argumentos expressivos dependem demais do texto de Miguel Amado para que possamos “lê-los”. E isso entende-se na rapidez fugaz que certo público dispensa à visita dos espaços reservados a essas duas contribuições.

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