Gabriel Orozco, no CAV (Centro de Artes Visuais), ao Pátio da Inquisição

Publicado Diário de Coimbra  23 de Maio de 2003

A visita à exposição de Gabriel Orozco, rapaz que nasceu no México quando eu já tinha os meus vinte anos, proporcionou-me um daqueles momentos raros na vida que permitem pôr de lado uma série incontável de relativismos, necessidades e tensões da mente. Desligar defesas às quais a crispação dos dias nos obriga, para deixar entrar por janelas escancaradas a deliciosa carícia do vento antigo que traz notícias da criação do mundo e que, no mesmo trajecto de impulsos, aponta lá para diante, para onde pensamos que mora o futuro. Vagueei por entre os variados motivos que no elegantíssimo espaço se encontram dispostos, sem qualquer necessidade de referenciação cronológica, social, histórica ou geográfica, captando em cada família de objectos o nexo imperioso de inter-relações formais, simbólicas e estéticas que desenvolvem no observador.

Das cidades ancestrais aos gestos do futuro

Ao entrar recebe-nos uma primeira e sumptuosa visão de grande angular que mostra uma cidade de um país antigo feita de arquitecturas de terra, telhados frágeis de colmo e  terraços áridos de secura. Ao fundo dessa fotografia ergue-se a sentinela vigilante que separa as almas da lonjura da planície e das serras distantes, uma monumental formação pedregosa,  fortaleza natural esculpida e afeiçoada por ventos e por milénios. Esse primeiro elemento encoraja-nos a descolar das coisas que deixámos lá fora na rua poluída e ruidosa onde todas as atitudes vitais parecerem depender do esquematismo de sapiências controladas. Em cima das mesas, cheias da nobreza expressiva do material singelo de que são feitas, encontram-se objectos de barro cozido, a primeira das famílias que referenciamos. Impressionam pela robustez estética e pela variedade de conceitos plásticos, situados nos extremos distantes da funcionalidade para a sobrevivência, na determinação do gesto construtivo e no reflexo das configurações do corpo. Uma dessas figuras transmite, na antiguidade do material de que é feita, a explícita alusão às branduras do corpo íntimo, tal como outras remetem para uma ortopedia ciclópica ou sugerem modelos reduzidos de compactos megalitos. Nas paredes outras fotos e outros desenhos transpõem para distintos planos de significação os objectos referidos, enquadrando-os no contexto de uma civilização bem próxima da terra, de formas e gestos universais onde as linhas da própria mão se apresentam impressas, tal como as nervuras delicadas das folhas de uma planta.

O fenómeno mais intenso e a descoberta que fará flutuar o visitante encontra-se exactamente nesse cruzamento de sentidos. Das fotografias aos objectos e destes às elaborações desenhísticas e pictóricas há uma acumulação de itinerários que conduzem da gravidade remota de silêncios arqueológicos até às sínteses mais depuradas das visões da modernidade. Nas fotografias não é o pitoresco de circunstâncias etnológicas ou folclóricas o que mais impressiona mas sim a memória duma antiguidade transcendente na qual o vulto do homem, tal como nas grandes narrativas mitológicas, aparece apenas de forma austeramente simbólica confinado às imagens que reflectem a sua labuta pela sobrevivência: uma epopeia de pegadas em chão de terra seca, carreiros de pedra solta ou lajes afeiçoadas ao caminhar sólido e lento que conduz à eternidade.

A responsabilidade cultural e os cerimoniais inúteis

Exposições como esta, somatório de atitudes de rigor e generosidade formativa/informativa, responsabilizam imenso o visitante. Se houver olhos para ver e entendimento aberto para o fenómeno que está presente actualmente no Centro de Artes Visuais (CAV), e de que a exposição de Gabriel Orozco não é nem o primeiro nem o único sinal disponível, a comunidade dos apreciadores das artes vai ter cada vez mais dificuldade em entender a trivialidade baça e sem sentido de pendurações inconsequentes de objectos desconexos e abandonados à sorte da sua própria circunstância, por mais respeitável e entendível que tenha sido o seu momento criador (e muitas vezes, infelizmente, nem é esse o caso). Não vale a pena conceber a arte e a cultura como uma fatigante colecção de formalismos mais ou menos credenciados pela dignidade transitória de notabilidades encadeiradas. Se a cultura ou a arte não atingirem a serenidade fecunda da substância realmente comunicante, não passarão da fragilidade dum quotidiano sem raízes, nem memória, nem semente que floresça no ventre do futuro.

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