Arte moderna, arte do sec. XX, no Museu da Cidade

 

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Esta imagem não se refere ao texto abaixo. Representa a capa da exposição de abertura do Museu da Cidade, no Edifício Chiado em Coimbra.

Publicado Diário de Coimbra  1 de Abril de 2003

Escrevi esta “conversa de pintor” abismado pelo horror dos dias que passam, confuso e revoltado pela violência super-organizada, super-tecnocrática e super-hipócrita. O destino aparente do largo mundo dos conflitos sangrentos não pode, porém, impedir-nos de falar sobre factos como uma retrospectiva das colecções particulares de Coimbra, que tem lugar no Museu da Cidade, no edifício Chiado, comissariada por Telo de Morais, e que merece bem, por motivos diversos, uma atenta e interessada visita. Estamos pois “condenados ao impossível”, conforme citação de Rocha de Sousa no prefácio que, com lucidez e elegância discursiva, abre o catálogo das obras cuja presença virá visitar-nos ao longo de vários episódios expositivos, até ao fim do ano.

“Toda a Cidade é um Museu Encoberto”

O espaço reduzido da sala de exposições temporárias recebe as primeiras 17 de 88 obras que o evento pressupõe, e que se encontram reproduzidas em catálogo desacompanhadas de matéria de consideração crítico-informativa, se descontarmos a valiosa, mas muito genérica, abordagem de Rocha de Sousa, que tem por título a bela frase poética acima citada. Teria sido fácil inserir elementos de caracterização pedagógica a respeito das obras apresentadas, numa cidade onde rareia o apego e a informação a respeito da modernidade da arte, sobretudo daquela que é portuguesa, pelo que é pena e o visitante lamenta a lacuna que se observa. Sendo mostrada uma só obra de cada autor, é de supor um delicado trabalho na escolha das peças a associar em cada fase, para que a montagem resulte bem, como acontece sem dúvida nesta primeira realização. As obras estão dispostas, por assim dizer, em duas margens que se defrontam num diálogo de valores contrastantes ou complementares, revelando um vincado critério de bom gosto que nem sequer deriva, aliás, da estruturação estilística efectuada no texto de Rocha de Sousa. Vale a pena observar, por exemplo, a sequência formada de um lado pelas obras de Joaquim Rodrigo, Cruzeiro Seixas, Carlos Calvet, Rogério Ribeiro, etc. e pelas de Pedro Croft, Cabrita Reis, Casqueiro, etc. do outro. É ainda curioso o emparelhamento “fora de margens” dos trabalhos de Fernando Calhau e Raul Perez, totalmente contrastantes no teor de forma e conteúdo respectivos. Falar um bom pedaço a respeito de cada uma das obras mostradas, ou das sinergias que a sua confrontação produz,  mereceria o espaço não de uma, mas de várias “conversas de pintor”.

Responsabilidade e importância do coleccionismo

Ao fim deste ciclo de exposições não ficaremos a conhecer senão uma porção diminuta das obras coleccionadas em Coimbra, permanecendo misterioso o critério que as terá reunido, se mais de natureza estética e afectiva ou de natureza financeira. O já referido prefácio de R.S. abre para as importantes questões da descentralização e da autonomia culturais, da necessidade de estimular “a contemplação e o debate”,  de renovar os “modos de formar”, etc. A exposição, classificada como acto “com forte alcance cultural e de cidadania” é, não obstante, visivelmente tributária de estratégias aquisitivas dificeis de definir, mas que não deixam de reflectir centralismos e subjectividades pouco associáveis à afirmação de “autonomias”, apresentando-se cautelosamente asséptica quanto a possíveis valores locais. O coleccionismo é um pilar essencial do progresso criativo, e não perderia nada em contemplar novos valores, incluindo sem complexos nomes autóctones, para além dos casos raros que apenas se puderam afirmar longe, ao abrigo de outras realidades. O criério dos “valores consagrados” tem lançado no mercado da arte, aqui e no resto do mundo, uma quantidade enorme de obras de segunda linha que valem apenas pela assinatura que trazem aposta, abundando as histórias picarescas quanto ao modo como algumas foram parar ao circuito da comercialização. Numa obra de arte o único valor seguro é aquele que deriva dos seus conteúdos estéticos e do prazer intelectual e espiritual que comunica, havendo ainda quem pense com razão que vale mais uma obra boa dum artista desconhecido que uma obra medíocre dum nome prestigiado. Com esta me acabo, fazendo votos que o vento do deserto possa soprar de novo liberto dos venenos semeados pela guerra, que assustam os povos dóceis e lhes causam tanta dor.

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