Sara Maia no edifício Chiado, ou a vulgaridade do assombro

 

sara maia 2001

Publicado Diário de Coimbra  27 de Janeiro de 2003

A arte condescende muitas vezes em ser liricamente distante da realidade virando para o lado o olhar necessário e impiedoso. Solicitam-lhe outras vezes que salte de paraquedas lá de trinta mil pés de altitude onde ar não há que se respire e não se ouve a voz de quem fala por imposição desconfortável da máscara de oxigénio ou descomprometimento conveniente da máscara só-máscara. Acontece então ser tão vazio e tão inútil o seu discurso que não nos dá cansaço algum ouvi-la somente porque temos o bom senso de não lhe ligar atenção e vamos em busca de outra  ocupação da mente ou outra mais séria alegria do corpo.
O que me espanta na pintura de Sara Maia não é aquilo que tem da expressão alucinante com que tantas vezes me surpreendi na obra de Paula Rego ou da moralidade feroz e esclarecida que de longe me persegue em Otto Dix ou da desconcertante abordagem figurativa ou da virilidade cromática que me habituei em Max Beckmann.
O que me espanta é que não leio nos traços da sua contudente linguagem a atitude que poderia pertencer à generalidade das criaturas da sua idade ou da sua geração cultural. Como é possível pergunto-me que possa ter atravessado a porcelana translúcida da sua carne adolescente a antiguidade relativa de tão pesada herança de percepções.
Como é possível pergunto-me que não esteja ali o humor planificadamente cruel dos Simpson a sua claridade plastificada as suas cores metálicas e a vibração de sonoridades que sintetizadores aceleram por goelas abaixo dos devoradores de multimedia.
Uma pintura assim sejamos claros põe-nos os cabelos de pé. Altera os nossos planos de não sei que cultura predisposta a não sei que especulações. Os escândalos da reality são tão matematicamente condimentados de horário conteúdo e sequência publicitária e tão meticulosa e mesquinhamente pré-anunciados e digeridos em resumos de roda pé que já muito pouca coisa nos faz realmente ficar com medo ou genuinamente inquietos ou autenticamente tristes.
Tantas vezes nos sai uma gargalhada no momento exacto em que melhor poderiamos ficar apreensivos. Tantas vezes nos ocorre um impropério pela visão desconcertante do inimaginável tornado comezinho ou da impingência da mais boçal vulgaridade transformada em ocorrência de prodígio.
Em Sara Maia a lei da gravitação universal é posta em causa e não apenas pela ausência do velho compromisso do equilíbrio tectónico tão reconfortante para as nossas mais justificadas convicções.
Em Sara Maia os anões abundam alguns são verdes e outros impúdicos. A tutela da guardiã é ornada de medalhas e empunha cacete os pássaros esquisitos levantam vôo de cabeça a fundo as bruxas desequilibram-se pelos paus de vassoura abaixo tudo ao contrário das lendas previsíveis e de certos efeitos especiais. Na realidade oh como é frequente que uns se ponham a cavalo de outros e que estes por seu turno tenham que alancar com os primeiros. Tanto homem cão tanta mulher bicho.
E aquela da coxa grossa que ficou quase de fora da pintura e se larga à unhada à outra que está por baixo contrafeita pálida e quase ausente. O anão de feltro mole ladra para dentro da saia (é dum padre preto ou duma viúva alucinada) e o anão careca abraça numa preversão de apetites o frango assado tão conformemente arrumado na sua frigideira inox ou na sua embalagem de hipermercado.
Figurões piratas lançam os dados e puxam das cartas viciadas como vemos acontecer todos os dias baloiçando-se por cima de patetas distraídos ou de outros patetas com miolos alimentados a pilhas como aqueles que passam aos cardumes aqui na minha rua mas sem que a história nos seja contada assim fazendo de conta que tudo está como deve e que as magníficas leis da natureza não falham e que se cumprem todas as regras da ciência conhecida.
Oh paz podre oh santas alianças oh sociedades discretas oh almas simples oh bem intencionados oh ingénuos oh distraídos oh hipócritas venham cá todos que isto é connvosco este é o vosso retrato o vosso bilhete de identidade o vosso passaporte para o lado de cá da mentira.
Uma mulher gorda monta-se às costas dum homem cão gordo de chapéu e fato preto e há outro homem em mangas de camisa que lhe apalpa as mamas empoleirado num anão exausto e desfigurado pelo esforço.
Outro anão palita os dentes com uma bandeira e outro acaba por estatelar-se rapidamente para fora da própria pintura. Oh meu Deus como é vulgar este cenário. Oh meu Deus como isto é de hoje e de sempre.

sara maia 2002

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