“O Clérigo da Beira”, no TAGV, pelo Teatro das Beiras

O_Clerigo_da_Beira
Publicado Pelo Diário de Coimbra em 21 de Novembro de 2002

A Praça da República, descontando o urbanismo duvidoso que a tornou pequena, é um local enobrecido pelas memórias dos que por ali têm passado e pela merecida convivência que se deseja cheia de cultura e de paz.
Mesmo ao lado, o TAGV, obra que envolveu figuras gradas da nossa arquitectura tais como Cristino da Silva, Alberto José Pessoa e João Abel Manta, também autor dos graciosíssimos painéis de azulejos (quase) escondidos pelas paragens de autocarros, onde um rio caudaloso de trânsito torna desconfortável a requintada avenida que nos legaram os homens de há mais de cem anos!…
A Mostra do Teatro Vicentino continua a derramar os seus frutos. Na Segunda-feira, às 18 horas, teve lugar o habitual “prólogo de Vicente” com uma apresentação sobre O Triunfo do Inverno, por José Cardoso Bernardes, que pediu uma sensibilizada salva de palmas para a Sociedade de Instrução Tavaredense, senhora de amplo historial no ofício do teatro que ali foi declamar textos ilustrativos do que foi dito. Nos dias 12 e 13 foi à cena O Clérigo da Beira, pelo GICC, Teatro das Beiras, sediado na Covilhã, que ostenta um brilhante palmarés de realizações, com um núcleo duro de trabalhos sobre Gil Vicente.
Este “Clérigo” foi-nos oferecido num registo de ampla comunicabilidade, graça e colorido, tendo na música uma componente especialmente cuidada e efeitos cénicos que chegaram a certo requinte.
Um conjunto instrumental presente no palco, com a naturalidade cúmplice que alguns “efeitos de distanciamento” puderam evidenciar, foi-nos apresentando música composta para a peça, o que lhe conferiu um toque de quase exotismo, a fazer lembrar algumas sonoridades aparentadas, senão com Kurt Weil, pelo menos francamente  alusivas ao clima do teatro expressionista. Sendo bem equilibrado o conjunto de actores, dois houve que excederam a bitola do comum, reservando aos espectadores surpresa e entusiasmo: o “negro” e o “filho do Clérigo”, sem desprimor para todos os outros, claro. Em virtude da largueza de espaço que oferece o TAGV (em tudo diferente dos locais onde Gil Vicente teria actuado com a sua pouco numerosa companhia) e devido à vivacidade e movimento cénicos, perde-se por vezes uma larga porção das falas dos actores.

O Teatro Vicentino, de discurso tão vibrante de ironia e acinte, remete-nos desta forma para uma necessidade suplementar: a de irmos ler depois (se o não fizemos antes…) o texto literário que lhe corresponde. Contudo, é aí que começa uma “romagem agravada” pelas debilidades da nosso panorama editorial.
Experimente o leitor dar uma volta pelas livrarias, tente comprar umas obras completas de Gil Vicente e ficará a saber do que é que estou a falar!…Para aquelas almas cujo pesadelo é a invasão espanhola, recomendo vivamente uma visita às enormes colecções de divulgação popular do país vizinho (livres dos  entraves que os nossos editores não podem ou não querem abandonar) baratas, práticas e riquíssimas de anotações.

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