Gão Vasco em Salamanca, ou São Pedro do olhar triste

 SPGV

Publicado Diário de Coimbra 25 de Julho de 2002

 

As capitais de cultura multiplicam-se, como sinal possível de que a humanidade progride e o espírito vale. As aceitações das candidaturas são sempre noticiadas como grandes vitórias, há grandes abraços e toda a gente parece feliz, porque o que vai passar-se irá perdurar na memória, por longos anos. Desde os preparativos se levanta uma poalha doirada de expectativas, como se aquilo que nunca foi, pudesse vir a ser. Porém, nada disso é intuitivo ou natural. O que desce, lenta e secretamente, vem suspenso pelos estranhos fios que sustêm o palanque doirado dos sonhos, e é mais do domínio das prendas inesperadas ou das revelações inauditas.
Há dias fui visitar Salamanca. Soube pelos jornais que ali se inaugurara, com solenidade, uma exposição do grande pintor português e confesso, quase envergonhado, que fora apenas isso – para além da simpatia que nutro pela cidade – que motivou a decisão.
Na excursão de finalistas da minha escola, já lá vão tantos anos, foi-me dado ver o S.Pedro de Grão Vasco, num velho e soturno museu mesmo ao lado duma igreja antiga, feita de pedra escura.
Desculpem-me se falo assim mas, com os meus dezasseis anos, com chuva de inverno, foi mesmo assim que o S. Pedro me ficou na memória: um velho de olhar  triste, vestido com uma roupa solene de oiro e pedrarias, de rosto fatigado, preocupadíssimo.Acontece que, de momento, Salamanca está “Ciudad Europea de la Cultura”!…
Lamentavelmente distraído nem me passava pela ideia que coisas ia encontrar que pudessem ser do mundo inaudito dessas venturosas cidades. Povo, muito povo enchendo todas as ruas, conversando e rindo alto. Casas bonitas, bem tratadas, ruas largas e grandes jardins, animação nuns sítios, serenidade sobrante para todos, em clima de enorme asseio.

Salamanca, Plaza Mayor.

Salamanca, Plaza Mayor.

Praças, largas praças onde os ecos flutuam, multiplicando sonoridades imperceptíveis como o bater de asas de milhares de vozes livres, que é som que não se compara com nenhum outro.
Bandeirolas e folhetos anunciavam esse acontecimento magnífico e é certo que havia uma abundância de factos culturais e artísticos de que toda a gente parecia estar inteirada pelo burburinho que ocorria aqui e acolá.
Entrei em vários monumentos magníficos e neles me perdi, olhando, olhando. A pedra antiga era quase loira de manhã, e à tarde – ao fim da tarde – parecia terra incendiada.

museu-grao-vasco-viseu-2

S. Pedro lá estava, como há muitos anos atrás. Um velho de olhar penetrantemente sério, desconfortavelmente sentado, oprimido por um traje pesadíssimo de ritualidade.
A exposição ocupa um edifício de proporções não muito amplas, generosamente enquadrado arquitectonicamente e com o interior tirando excelente partido de elementos de diversa natureza, antigos e modernos.
Dispondo a cidade de Salamanca duma alargada área histórica monumentalmente muito rica, onde também o conforto moderno tem lugar e presença estética, não tem o automóvel – felizmente – uma presença obsessiva. Circula por onde pode e lhe é permitido, deixando às pessoas que visitam e convivem ampla liberdade de paz e movimentos.
Será tudo isso que é ser uma capital de cultura?
Se for, então, estou plenamente de acordo. Que desça também sobre nós essa benção. Que a cidade nos receba como uma casa enorme onde cabem todos os filhos e, mais folheto menos folheto, mais peça de teatro menos concerto de Jazz, eu possa também aqui ter esse sentimento caloroso e simples de poder navegar por entre gente serena de todas as idades, bebendo os que têm sede, sentados olhando a vida aqueles a quem não apeteça qualquer outra coisa.
O logotipo de Salamanca, capital da cultura, é um semicírculo azul, ornado de uma constelação de estrelas brancas e alaranjadas, uma das quais se destaca do semicírculo, tudo em fundo vermelho. Que me perdoem os autores do logotipo de Coimbra, capital da Cultura, mas – com toda a sincera honestidade a que me sinto obrigado – dizer que não o aprecio é o mínimo que me pede a consciência.
A propósito, outra crítica construtiva, a título meramente exemplificativo: tenho passado pelas traseiras da Sé Velha e está lá perdido num pátio esconso um barraco com telhado de material ondulado, onde se acumula o lixo desleixado e é manifesta uma falta de aprumo sem limites.
Eu sei bem que tanta coisa mal arrumada e suja é capaz de não ir a tempo da capital da cultura, mas queria só avisar que em Salamanca não vi nada que se parecesse com aquilo que para ali está.
Ah! também gostei imenso da ponte romana completamente restaurada e que é só para peões. Fui até lá ao fundo e regalei-me com a barulho das águas do rio Tormes a correr, por entre o verde das folhagens. Já de noite as pessoas continuavam, numerosas, por todo o lado.
Gostei muito da capital da cultura de Salamanca  e, se for assim em Coimbra – oxalá que sim – tenho a certeza que vai ficar na memória de toda a gente!…

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