João Abel Manta, um artista muito difícil de nomear, no Museu da Cidade

JAB-01

Publicado Diário de Coimbra 10 de Maio de 2002

 É preciso ter cuidado com o nome com que classificamos este ou aquele artista.
Podemos estar a chamar-lhe alguma coisa que ele não é, ou a criar uma conotação tão diminuta das coisas que nos revela que, mais do que o conceito da pessoa, é o nosso olhar que fica preso nas determinações elementares de uma categorização que nada diz. As crónicas abundantes vão à prateleira das classificações técnico-profissionais e tiram um, dois, às vezes mais termos caracterizadores e colam no artista etiquetas preguiçosas, apertadas como fatos mal feitos, no rodapé do discurso elogioso. Também acho que não deve dizer-se bem dos artistas. Isso faz falta para as pessoas que já morreram e para as figuras desinteressantes que atingiram prestígios incontestáveis. Dos artistas deve dizer-se o sentimento da verdade, já que devem trazer consigo o risco dalguma inquietação e combustível para algumas discussões entusiásticas.

Todos os nomes?

Que artista será, então, João Abel Manta, em breve resumo visitável no Edifício Chiado, na sala de exposições temporárias do Museu da Cidade?
Chamar-lhe-emos pintor? arquitecto? encenador? enciclopedista?
Quando olho para as suas coisas é como se estivesse à conversa com um caudaloso inventor de conceitos, ou perante um palco repleto de personagens servido pelo mais inesperado e surpreendente dos cenários. Conceitos e cenários levados por vezes bem para além dos limites da “conveniência” da sua relação com a realidade visível, em incursões pelo mundo estranho dos seres que povoam o universo instável da invenção poética e pelo exercício da mais cálida ironia. Ao enciclopedista – ou seja, ao homem culto de recursos imaginativos inesgotáveis – vou buscar o que me falta para entrever todas as coisas que não sei, nem saberei, mas que causam o mais secreto entusiasmo e a mais misteriosa surpresa. Sabemos que a arte de J.A.M. é deliberadamente “impura”, possui uma elevado teor de qualidade técnica, de ressonâncias emocionais e que está saturada de “sentidos”. Sabemos como essas coisas são distantes da arte politicamente correcta de agora, que tem pouco a ver com a mão e muito pouco a ver… com o olhar! Hoje a arte é mais grandes acontecimentos “sponsorizados”, empresas de altos comissários, multimédias financeiro-administrativas de exótico gabarito. Os artistas e as ideias ficam lá na fila do fundo; o gesto estético é um corpo espremido por conceitos de vanguardistas-gestores de “novas linguagens”, “desmaterializadas” e efémeras. As vanguardas históricas passaram fome, deram quadros mal aceites por cama e mesa, combateram e derrotaram antigas convenções académicas sem imaginar que um dia viriam a ser leiloados por bilionários nas Londres e Novaiórques. As vanguardas burocratizadas do sec. XXI vão ser muito mais difíceis de desmistificar, porque tomaram as suas precauções académico-políticas e não se iludiram com sonhos de generosidade artística. Mas eu quero lá saber de tais coisas se estou a olhar para um desenho, uma pintura, um mecanismo mágico ou um “drama per musica” de João Abel!… A capacidade acrobática do riso mais escarninho, o registo condoído da dor mais aguda, a percepção do gemido mais ténue, a gargalhada mais contundente e o clarão da mais viva sinceridade, está tudo espalhado por ali, para quem queira colher o fruto do olhar incisivo. O cair ondulante das sedas, a transparência das organzas, a espessura repelente de certos uniformes, o ranço dos hábitos inquisitoriais estão todos por ali, em referenciações expressivas que se alargam ao mais vasto elenco de ideias artístico-culturais. Citações de todos os matizes estéticos, todas as matérias e todas as sensações, títulos e capítulos das obras incontáveis duma biblioteca de sonho.

As intenções boas e as boas intenções

A sala clara, mas de modestas dimensões, do museu da cidade, lá vai fazendo seu caminho, como devem andar as coisas que querem chegar longe. Há dias vi lá uma exposição com coisas de crianças, que achei deliciosa. E, já agora, era veículo dum intenso sentido estético de modernidade!… Vale sempre a pena entrar no museu e na sala das exposições temporárias, que têm de inventar novos espaços se quiserem um dia poder mostrar, por exemplo, uma verdadeira exposição de João Abel Manta que esteja à medida da estatura do artista, ou à medida do nosso interesse pelas coisas, que não é pequeno. É tempo de acabar duma vez por todas com o espírito das colectivas paroquiais, das coisinhas bem intencionadas, do sentimento de magnanimidade abrangente que, apresentando todos os artistas, não mostra nenhum.
Que, desejando agradar a todos, não esclarece ninguém.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s