Com Tchekhov e o Fernando, num café ao lado da Sereia

Publicado Pelo Diário de Coimbra em 9 de Abril de 2002

Foi há quarenta anos mais ou menos que eu vi pela primeira vez uma peça de Anton Tcheckov, que começou a guerra em Angola, e já por essa altura sujava os dedos num  semanário que relatava os problemas na Palestina.
Para que não esmoreça em mim algum perfume dessa já distante juventude fui ver “Malefícios e outras virtudes do Tabaco”, pelos Bonifrates, com encenação de João Paulo Janicas, e fiz muito bem, para me retemperar de uma semana alucinante de tanques de guerra rugindo e guerreiros ferozes por ruelas desérticas de cidades desconjuntadas e  almas em desespero.
“Os Malefícios do Tabaco”, curto monólogo de qualidade antológica, é tema de abertura deste interessante trabalho de composição dramatúrgica e derrama por sobre os espectadores a poalha de estrelas da palavra única e prodigiosa de Anton Tcheckov.
Literatura de humanidade pura, saturada de vestígios do quotidiano universal, foi-nos falada com mansidão de gestos consabidos por um rosto feito macilento que oscila entre o temor e o cansaço. Um actor de figura cerimoniosa e vacilante como o nosso próprio anseio de felicidade, vacilante e inconformado como a nossa urgência de justiça e de paz.
Fernando Taborda, um grande Senhor do Teatro, vem até nós, mais uma vez, vencer-nos de prazer e encantamento.
Eu sei bem como anda o mundo e como parece descabido este assomo de sincera admiração, face às alucinações mediáticas dos nossos dias conturbados. É vital, contudo, que os nossos olhos permaneçam bem abertos para poder ver tudo aquilo que não é nem da morte, nem da tristeza, nem da bárbara violência.
Também Francisco Paz, um actor sempre rico de recursos expressivos, nos oferece um trabalho muito difícil, repartido por dois personagens diferentemente compostos entre o frívolo expedito sem estados de alma,  e o enfermo psíquico a braços com as pequenas obsessões da enorme e lastimável solidão.
Fico triste por não me sobrar espaço para falar dos outros actores, todos tão jovens, todos tão belos, de palavra tão clara e de gestos tão precisos.

Angola, viva a paz em português!…

Há quarenta anos Fernando Taborda preparava-se para combater em Angola e eu via desfilar homens fardados de kaki amarelo em ruas cheias de lágrimas.
Há quarenta anos já sofriam amarguras os futuros pais das crianças que atiram pedras aos tanques na Palestina.

Há quarenta anos eram petizes os generais que na semana passada, luzidios e fardados com esmero, se abraçavam convulsivamente em Angola, prometendo a paz.
O serão, após a peça dos Bonifrates, acabou bem,  num café ali ao lado de Sereia, com cerveja e todos conversando alto.

Como complemento histórico do texto acima (e isto não é teatro…) junto a reprodução de uma lembrança viva de há mais de cinquenta anos, para aí de 1961 (já eu devia estar na tropa…).
Uma fotografia do desfile de tropas que teve lugar em Leiria, com imensa comoção pública. A fotografia foi enviada para meus tios que estavam em Moçambique, e o texto abaixo é da mensagem que a minha querida mãe escreveu no verso da própria fotografia:

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