Album de cromos de riso a preto e branco, em estreia da Bonifrates

Publicado Pelo Diário de Coimbra em 6 de Março de 2002

A peça “Cromos” estreada na sexta feira pela Cooperativa de Teatro Bonifrates recuperou-me de uma tarde de alguns desgostos culturais deste meio tão avaro e tão soturno duma capital de cultura que ainda não é.
Ver tanta gente, sobretudo tanta gente nova, a trabalhar em teatro com tanta alegria espontânea dá ânimo a quem tenha o privilégio de ir ver o espectáculo.
A peça apoia-se no já habitual acerto cenográfico e de encenação cujo talento é o de parecer que não existe, sabendo nós – porque vemos – que tudo foi feito com a sobriedade elegante que só a maturidade inteligente permite.
Alguns momentos (e estou a falar duma récita de estreia) roçaram o apuro formal do profissionalismo, fluindo o discurso teatral muito para além das margens do texto, na afirmação dum jogo cénico desenhado pela naturalidade solta dum grupo permanentemente renovado, que sabe capitalizar uma experiência de vinte anos de trabalho, em instalações modestas e com meios muito reduzidos.
É evidente que a peça não é de autor português, que o tipo de linguagem e o nível de introspecção não correspondem à problemática  tal qual se põe entre nós, povo de dramas surdos e silêncios bem guardados.
Falta-nos o desplante blasfemo que têm na fala os outros povos da hispânia, falta-nos o destemor frontal e a inteireza de caracter de nos confrontarmos com os outros, se nem connosco próprios o fazemos.
Nós somos do sorriso enviezado, do silêncio estratégico, do “não me quero chatear”, das soluções cinzentas e do não dar confiança.
Ao português basta-lhe sonhar em ir para a cama com a cunhada. Se acontecesse, porém, não era com a irmã dela que o assunto iria ser discutido.
O pai das nossas esposas nunca terá sido gay (como é que isso se diz em português que já não me lembro?!…) e as mulheres daqui, quando discreteiam sobre questões íntimas ou problemáticas, há-de ser sempre com as palavras reservadas do mais razoável pudor.
Na energia comunicativa destes Bonifrates a apresentação dos problemas secretos e universais resulta em processo purificador porque se situa entre a consciência e a catarsis, entre o colocar e o retirar da máscara, entre o choque da surpresa e o seu desenlace revelado com humor.
O final, que recupera benevolentemente algum coração condoído de mãe iluminada, remete para uma aparição do arco-íris, poética de criaturas que não se deixaram abater por nenhum desencanto, prontas para novas contradições, novos mitos e decisivos recomeços.
Como espectador, o que me dói, é regressar mais uma vez, e sempre,  àquele desarrumado ambiente inóspito no qual vão laborando abnegadamente os Bonifrates.
Sempre pela mesma escada dos fundos tento esquecer os sanitários bem visíveis e desembarco quase às escondidas numa autêntico fundo de garagem com palettes carregadas de materiais diversos, quando não com caminhetas estacionadas, em convívio difícil com uma sempre entusiástica plateia que a autoridade camarária, agora renovada, não vai com certeza desiludir durante outros tantos anos.

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