João Gordo, eco e transfiguração da imagem fotográfica

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Publicado Diário de Coimbra 28 de Fevereiro de 2002

Integrada na quarta edição da Semana da Mostra Cultural da Universidade de Coimbra, da qual fazem parte um elevado número de iniciativas, abre no dia 1 de Março uma exposição de fotografias de João Gordo, a ter lugar no Teatro Académico de Gil Vicente, que dura, como o próprio nome da iniciativa indica, a brevidade modesta de apenas sete dias. Tendo tido o privilégio de poder acompanhar, ao longo dos anos, o labor do artista, é com imenso interesse que tenho seguido este último desenvolvimento do seu trabalho, por me parecer que constitui algo de surpreendente e original, tocado duma subtil inteligência plástica a merecer bem mais destacado relevo. De louvar é a atenção que à obra tem dispensado a pró-reitoria para a Cultura, que já anteriormente organizou uma exposição de obras do mesmo autor, dum ciclo sumptuosamente belo de imagens obtidas nos campos do Baixo Mondego.

A dificuldade do que é simples e a simplicidade do que é transcendente

O escasso número de obras que irá ser apresentado na pequena galeria do TAGV não me parece bastante, infelizmente, para revelar o potencial estético e a riqueza plástica que se encontram evidenciados neste novo ciclo, cuja consideração me parece desafiar, desde logo, a contingência da sua classificação como “uma exposição de fotografias”. Considerando de passagem a invasão meteórica que a fotografia operou no universo da pintura, julgo que estamos perante um exercício notável da reafirmação de valores que a esse universo dizem respeito, como é patente em tantas outras explorações da arte fotográfica mais recente. Partindo da captação de elementos arquitectónicos  através de um exigente método de análise e selecção, o qual mereceria desde logo um mais alargado comentário, João Gordo passa a uma segunda fase do seu trabalho. Através da associação dessas captações, em processos de teor sempre diferente, concentra e depura a matéria documental das mesmas, conferindo-lhes o valor de matéria visual pura, na invenção duma nova categoria de “seres” ou de “paisagens”, exactamente como um pintor faria com linhas, pontos e planos, na materialização duma nova face das coisas visíveis e/ou inventáveis. Na maioria dos trabalhos, concebidos por meio de contraposições e alinhamentos aos quais não é alheia a utilização subtil e mínima do elemento de suporte, é por efeito de potenciação compositiva que a imagem se renova e transfigura, sendo apetecível a diversidade infinita de soluções combinatórias de conjuntos de obras entre si.

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A fotografia como referencial da pintura e vice versa

Estamos portanto perante a assimilação de diferentes atitudes de expressão artística que não fazem esquecer nem arriscam subalternizar os valores do gesto fundador respectivo. Ou seja, uma “pintura” ou uma “fotografia” feitas à base de valores máximos de ambos os reinos,  que depuram sem esterilizar, dando um novo sentido à ideia de paisagem, ou conferindo nova substância a objectos exaltados pelo seu próprio isolamento, nos limites da percepção abstracta. Uma parede dum teatro restaurado à qual a sombra confere a maciez do veludo ou uma margem de azul cuja modulação é tão explicita quanto misteriosa, são contrapostas ao seu próprio eco. Um alçado de Siza Vieira desdobra-se para além do seu ritmo inicial e, por mais acertado  e feliz que possa ser como acto construtivo, assume o carácter de qualquer outra coisa inventada e ondulante. Uma empena ebúrnea pela luz forte da meia tarde, uma cimalha indecifrável no seu geometrismo de sombra estreita ou a presença equívoca de três janelas circulares, parecem-nos sinais de uma outra realidade, suspensas na vastidão imperscrutável.
Onde moram tais obras?
Qual o céu que as cobre?
Já não interessa nem será possível dizê-lo. As imagens dadas a ver por João Gordo permitem uma quantidade enorme de questionamentos, e será essa a marca distintiva da obra criadora qualquer que seja a técnica de que se sirva.

Oxalá que Coimbra, terra grande/pequena no precipitado enlevo com que relativiza os seus próprios criadores, não ponha de lado a possibilidade feliz de reconhecer de forma mais cabal o valor inequívoco do testemunho artístico da obra de João Gordo.

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