“Sexo, drogas & rock n’roll”, no TAGV

Publicado Pelo Diário de Coimbra em 25 de Outubro de 2001

 

“Coxia Central” apresenta-se aos leitores do Diário de Coimbra.
Desse ponto estratégico é onde o espectador melhor observa tudo o que se passa em cena ou no écran e, caso o espectáculo seja enfadonho, pode sair facilmente antes do fim, sem ter de pedir licença a ninguém.
“Coxia Central” não tem o intuito de “ir a todas”. Prefere escolher, procurando ser cúmplice do espectador médio de Coimbra, o tal que é dito, pelo menos nas entrevistas dos actores visitantes, ser “dedicado e exigente”.

Uma coisa que está a dar são os espectáculos a uma só voz, protagonizados por artistas de televisão que fazem o “seu” espectáculo para refrescarem as raízes frente ao auditório vivo.
No TAGV, nestes últimos tempos já são três os que pude ver nessa versão. José Pedro Gomes em “O último a rir”, com muita gente, foi engraçadíssimo. André Gago em “Acerca da música”, em formato recital e com a cumplicidade de um pianista, foi um serão cheio de finura  e muito menor assistência (terá sido mero acaso?!…)
Dias 21 e 22 esteve Diogo Infante com “Sexo, drogas & rock n’roll” com texto dum autor norte americano e patrocínios de mais vasta escala (a citação da marca patrocinadora no texto da própria peça não passou despercebida…) que foi,  dos três, o que menos me agradou. A casa rebentava pelas costuras, e com isso se alegram sempre os amigos da palavra viva do teatro, da acção dramática rosto a rosto, em directo (que nunca é o mesmo que um reality show…).
Das cinco figuras ilustradas, três eram consumidores inveterados e outro era bêbado perdido, o único que parecia ter uma réstia de juízo dado que tinha preocupações ecológicas e com um discurso que o aproximou dum óptimo momento de burlesco desconcertante.
Outra das figuras, machão assumido, era-nos mostrado preso com algemas e tudo. Não ficámos a saber porque é que havia de ser, além de machista, recluso. Passou o tempo a fumar e a ajeitar as entre-pernas, o que estimulou gargalhadas com que a sala foi premeando o actor, às vezes mesmo antes de ele dizer fosse o que fosse.

A juventude é uma coisa muito bela e rir por tudo e por nada não se pode levar a mal a quem tem toda a vida pela frente. Eu por exemplo, depois de ter conhecido uma pessoa cuja filha lindíssima e talentosa foi completamente esfrangalhada pela droga, tenho imensa dificuldade de me rir com o tema.

Todos os factos, mesmo os mais severos, podem ser abordados pelo humor, seja na perspectiva do absurdo, do fantástico ou do surreal. Registos que a peça de Bogosian raramente atingiu, pelo menos no tratamento que lhe foi dado por Diogo Infante. Isto para não falar da falta que me fez ali a carictura do traficante ou, não podendo ser de forma nenhuma, um “dealer” já era quanto me bastava.
Ah, havia ainda um sujeito ridículo que oscilava entre o maricas e o impotente (que o que gostava era de fazer amor pelo telefone) e a finalizar um artista (dito frustrado) que afirmava desejar ser famoso e ganhar muito dinheiro, além de ser potencialmente muito vingativo, nihilista e uma série de outras coisas que não chegou a explicar bem.
Estes dois últimos, como o arrumador de automóveis, eram tão ofensivamente reais na sua vulgaridade patética, que não é preciso ir ao teatro para vê-los.
Acabou a peça, o actor viu prendados os seus dotes com muitos aplausos, e eu saí da minha coxia, com toda a agilidade, para respirar o ar fresco de Outubro.

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