Dom Juan de Molière pela Bonifrates, 18 anos depois

Crítica de teatro publicada pelo Diário de Coimbra, na minha coluna “conversas de pintor”

As luzes da sala já se apaga­ram, dando lugar à intensidade luminosa dos focos que animam o palco de vida própria, como em flutuação de sonho.
Ouve-se uma música vibrante e os primeiros actores surgem. Vêm lá do fundo, em marcha solene, até ao proscénio. No pequeno tea­tro de bolso em que actuam toca­riam nos espectadores da primeira fila se acaso estendessem um braço e uma mão. Mas não fazem isso. Oferecem-se sem palavras à curiosa paixão de vê-los, envolvi­dos por aquela música sincopada quase encantatória. O espaço que ocupam na nossa mente não está perto nem longe nem acima nem abaixo de nós. Evoluem no territó­rio que reservamos às nossas con­cepções abstractas, reflectindo em cor e luz a imagem que traçamos de nós mesmos, dos nossos dese­jos íntimos e da nossa concepção do mundo.
José de Oliveira Barata, encena­dor de mais esta peça, reserva para os actores mais alguns minu­tos de silêncio expressivo. Ele, que justifica no catálogo da peça as características do trabalho feito face aos meios com que labora a cooperativa não desatou ainda a corrente das palavras que nos levou ali e conseguiu – desde já, e de forma exuberante – pôr a rolar a locomotiva das nossas emoções e desdobrar, como num escaparate de sensações, a mais aguda curiosidade de todos os presentes. É essa a magia do Teatro? Não sei nem vou explicar. Mas vale a pena pensar nisso.

Tempo para dizer, tempo para escutar e entender

Tenho visto encenações de peças do Teatro Clássico em que o espaço da palavra é reduzido em beneficio da exuberância gestual e interpretativa dos actores. Faz-me imensa pena ficar preso a toda aquela “vis dramática” e sentir que as frases cavalgam soltas sem que possa captar o seu sentido pró­prio, gozando ideia a ideia sentido a sentido. É com certeza uma ati­tude consabida de encenadores e actores, receosos de que o discur­so dramatúrgico roube alento e traga o sono às plateias. Noutras encenações é a plasticidade radi­cal de trajes e do espaço cénico que tenta aliciar a atenção, consti­tuindo parte essencial do espectá­culo. Neste trabalho da Bonifrates não é assim. Ao desenrolar do texto foi dado um tempo próprio e um ritmo ideal para que do texto nem uma palavra se perca do princípio ao fim de toda a peça O que, aparentemente, não foi difícil a José de Oliveira Barata e a todo o excelente grupo de actores, por disporem dum precioso e impres­cindível elemento de coesão no jogo cénico que é corporizado pela interpretação de Fernando Taborda. O actor está continua­mente no centro de todas as aten­ções, repercutindo as vibrações mais íntimas do discurso dramáti­co em acentuações de efeito diver­so e sempre renovado,
À figura de Esganarelo foram reservadas contudo outras signifi­cativas responsabilidades. Ele não é apenas a personagem que faz flutuar à tona do sorriso (e até da gargalhada franca) todo o decurso da peça.  Modificando e actualizan­do os propósitos do texto clássico de Molière está-lhe confiada a tarefa de efectuar a ponte entre o espectador atento e a figura inve­jável e controversa do mito de Dom Juan.

O trágico burlesco em vez da mentira do “happy end”

Transfigurando o seu rosto a partir do momento em que as contradições do seu amo atingem o limiar do insustentável, Esgana­relo despede-se da comicidade quase ingénua com que nos embalara até esse ponto. Naquela brancura nova e artificial do seu rosto iremos poder projectar as interrogações a respeito já não apenas de Dom Juan e do seu mito, mas a respeito de outros libertinos, e de menos românticas libertinagens. O aplauso relaxante e o fim feliz não poderão deste modo vir connosco até que a noite se consuma num sono reparador. O alerta contra a hipocrisia massificada, planificada e cientifica, deixa a milhas de distância o engenho do sedutor de capa e espada. A consciência séria dessa opção fez com que Esganarelo, no momento em que enverga, ponta acima ponta abaixo, a casaca do seu truculento amo, transporte para um trágico burlesco a condi­ção dos ingénuos e das ingénuas prontos a indultar não apenas os magníficos desvarios do aventurei­ro, mas sim todo o rol de enganos em que nos mergulham os “vícios do século”.
O protagonista cavalheiresco é interpretado por João Paulo Janicas, que confere â persona­gem uma presença consistente e bem torneada. No discurso final de legitimação da hipocrisia diz-nos que a mesma “é um vício que está na moda e que todos os vícios que estão na moda passam por virtudes”. O débito destas pala­vras é atirado, ao espectador com uma porção tão convicta de ener­gia e raiva, que soa mais como um anátema ou uma severa advertên­cia.
Dos actores e restantes técnicos digo muito pouco, quase nada, por falta de espaço. São vários os rostos bem conhecidos do grupo que de há anos prestam o seu contributo de forma excelente. Constituem já um conjunto desenvolto e coerente, capaz de assimilar no seu seio aqueles que com menor continuidade por ali têm passado e continuarão a pas­sar, graças ao prestígio que a companhia tem vindo a granjear como praticante de um autêntico teatro experimental.

O pintor Carlos Madeira e a cultura estética do teatro

Não é possível fazer teatro que seja digno desse nome, sem fazer de cada nova peça um adequado estudo prévio, que domine o opu­lento quadro de referências cultu­rais que lhe são próprias.
As caracterizações de estilo, a escolha dos elementos de acen­tuação simbólica, a recusa do óbvio e a preferência pelo que é distinto marcam presença ao longo da carreira de qualquer companhia desde os primeiros esquissos que irão configurar o espaço cénico até à descoberta do último adereço.
A linha de continuidade cenográfica que tem caracterizado ao longo destes anos a Cooperativa de Teatro Bonifrates e a contextualizacão visual de cada trabalho apresentado, com produções de baixíssimo orçamento, constran­gimentos de espaço etc. tem esta­do a cargo do Pintor Carlos Madeira. Para além da notória competência dos diversos encenadores que tem passado pelo grupo, penso ser aquele um dos elementos chave dos êxitos artís­ticos alcançados e por todos reco­nhecidos.
No conjunto das cenografias anteriores da Cooperativa é visível a intervenção do artista numa grande variedade de opções plás­ticas, consoante o tipo de peça, e a abordagem – com engenho e grande comunicabilidade – das problemáticas da sociedade e do mundo actual.
Pelo cruzamento muito intenso de ideias oriundas das artes visuais e da comunicação, recor­do apenas o último trabalho leva­do à cena (“A Família Dupond”) que infelizmente não foi possível trazer a estas crónicas. De autoria da Espanhola Alicia Guerra e sob a direcção de João Maria André, efectuava um “raid” alucinante ao universo da violência social e familiar, no contexto dos diversos meios de comunicação social, ao qual não era alheio a própria banda desenhada ali evidente através das referências à obra do artista galego Miguelanxo Prado.

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