Telo de Morais ou a vontade de criar, coleccionando

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Publicado Diário de Coimbra 16 de Julho de 2001

Os grandes momentos da cultura e das artes, se bem que derivados de conjunturas específicas, não resultaram nunca de casualidades fortuitas. A sua eclosão está dependente do trabalho lúcido, esforçado e persistente.
O  coleccionismo eivado de exaltação estética  é uma das condições fundamentais para que qualquer sociedade, em qualquer período da história da humanidade, possa atingir o patamar essencial duma verdadeira cultura artística e faz parte desse conjunto de fenómenos que não dependem do acaso, mas da implantação de valores humanos determinados.
É por seu intermédio que as obras de arte, no seu todo, adquirem essa qualidade de “objectos falantes” que jamais poderão atingir como peças descoordenadas e desconjuntas, por mais nobre que seja o material de que são feitas.
Não é possível descrever esse sentimento profundo de enlevo e de paixão que atravessa o espírito quando diante do coleccionador se apresenta a obra, como coisa por casualidade descoberta, embora procurada com determinação inteligente.

Merecer uma visão do mundo

Não é porém na intensidade desses momentos que reside a virtude essencial do acto de coleccionar. O valor da descoberta pode, por variadas razões, ser equivalente a uma segunda criação do objecto se for norteada pelo gosto e pela consciência crítica. O que quer dizer que tem de levar dentro, associados, dotes da cultura e da sensibilidade capazes de abrir as verdadeiras páginas da história da arte, de dar nome aos movimentos estéticos e de colocar os protagonistas da criação no seu plinto de eternidade excelente.
Todas estas coisas são por demais conhecidas, dirá o leitor. Pensamos nos grandes coleccionadores do passado ou em nomes sonantes da actualidade, os Longhi, os Thyssen-Bornemisza, os Guggenheim, os Gulbenkian e é sempre à distância de milhões, ou à distância de séculos, ou à distância de países que avaliamos essa realidade.
Espessa realidade essa, guardada em palácios antigos ou edificações recentes e mediáticas, documentada em catálogos pesados de papel de luxo onde lemos todos os nomes que foram fazendo a história, desenhando fronteiras nos continentes da sensibilidade.
E nós aqui, será que não temos uma visão do mundo que mereça ficar? Será que não queremos ou não podemos?

A imprescindível autonomia cultural

Cada país, cada região, cada cidade merece que nela haja alguém capaz de olhar em torno e descobrir as coisas que interessem a cada homem ali e em qualquer outro lugar. Se isso for feito reescreve-se a história da humanidade em cada dia que passa, conferindo a cada lugar a parcela respectiva de autonomia cultural indispensável.
Sem essa mesma autonomia não será possível atingir a capacidade superior de criar e de entender a criação. Os frutos da criação artística e cultural não são de geração espontânea e não crescem nas árvores!…
Telo de Morais vem demonstrar-nos que mais do que os meios, é pelo gosto estético e pelo amor pela cultura que é possível redescobrir o essencial das atitudes dos artistas daqui e doutros lugares.
A colecção que nos oferece não é, reconhecidamente, caracterizada pela solidez esmagadora dos grandes homens de poder ou de fortuna.  Diligentemente reunida ao longo de anos, encontra-se não obstante repassada dessa energia do espírito capaz de reunir objectos raros tornando evidente o seu potencial estético.
Outro aspecto relevante do labor coleccionista de Telo de Morais é o perfilar-se como exemplo raro de atenção desperta à cultura da modernidade, num meio onde nem a acumulação do saber nem a presença da fortuna parecem ser janelas abertas sobre a estética do tempo presente.

O nome dos povos e a sua história

A primeira cidade portuguesa onde se ensinaram pessoas a ler perdeu o jeito de estar na frente, acomodou-se demasiado aos seus diplomas,  e não faz falta esta breve crónica para relembrar  aquilo que é evidente.
Como contributo à aquisição de uma cultura estética tocada de universalidade e como janela aberta à percepção do modernismo nacional em ambiente pedagogicamente propício, Telo de Morais liberta a cidade do peso opressivo dum distanciamento incompreensível  em relação aos principais fenómenos da evolução do gosto no Sec.XX.
Repito: sem ter sido rei do petróleo e muito distante até das fortunas das mais abastadas figuras desta terra que à mesma descerão sem deixar obra que se sinta ou se veja, o coleccionador Telo de Morais dá um exemplo eficaz duma acção concreta, das que podem viabilizar a implantação dos valores da arte numa sociedade, seja ela qual for.
Sem encomenda não podem viver os artistas, sem artistas não surgirão as obras, sem as obras ninguém poderá formar o gosto por elas, e sem o gosto e a cultura e o sentido crítico não chegará nunca a poder dizer-se que um povo existe, e está vivo e merece o seu nome ao lado dos outros povos que fizeram a história de toda a humanidade.

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