Carel Verlegh ou a cor como metáfora da energia do mundo

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 Publicado Diário de Coimbra 2 de Março de 2001

Respirando de pé no alto duma serra verdejante, cercado de pinheiros e céu azul, estou ali com o artista, homem inteiro nas suas frases curtas, acentuações gesticuladas e interjeições de simplicidade subentendida, as tais que deram jeito, por certo, aos laboriosos construtores que passaram pelos estaleiros de Babel.
Além dos três idiomas bem diferentes que vamos intermutando, dispomos da pintura, esse dicionário de recursos sem fim tão intuitivo e fundamental em Carel, que nos dá, sem mais delongas, o que é simples duma forma elaborada e o que é transcendente da maneira mais natural deste mundo.

O olhar, porta aberta para o mistério de todos os seres

Olha o pintor qualquer coisa que o rodeia. Um simples objecto vulgar, uma fotografia nas páginas duma revista lida e relida ou as figuras impressionantes e fundamentais como são as formas do nosso próprio rosto, as intrincadas volutas dos corpos entrelaçados no amor ou confrontando-se em lutas, a naturalidade dos animais, as árvores e todos os outros seres com a sua enigmática implantação no jardim do universo.
Carel senta-se pacientemente diante da tela incomensuravelmente vazia… e espera. Com traços de esquematismo simples define as captações intuitivas que lhe trazem notícias de tudo o que está próximo do homem por ser fronteira, ou referência, ou símbolo, ou metáfora da energia do mundo.
Carel senta-se de novo, e aguarda que todas esses corpos ou plantas, esses seres ou campos de energia se solidifiquem na sua mente em esquemas de cores, agora numa lógica comandada unicamente pelo impulso da visualidade, remetendo a origem simbólica de cada elemento à condição de continente duma outra realidade essencial, dum universo de cromatismos em confrontação dinâmica.
O artista levanta-se, horas ou dias depois, a caminho do seu azul e dos seus cádmios (amarelo e vermelho) animado por esse pouco que é tudo e, em combinações que alcançam todos os valores da escala cromática, ocupa os espaços disponíveis na tela com volumetrias acentuadas por iluminações subtis, sobreposições, transparências e compartimentações de recorte decidido.
O quadro está feito, restando ao autor que o contemple uma vez mais, ponderando a configuração de alguma subtileza final que faça, como ele me diz, com que o quadro fique realmente “equilibrado”.
A nós, espectadores privilegiados, cabe essa outra responsabilidade gratificante que é tentar fazer a viagem de Carel, mas no sentido inverso: desmontar peça a peça, com prazer e proveito, a origem escondida daquela figuração de cores saturadas, a que o autor recusou artifícios de pitoresco decorativo, falsas pistas de encenações oportunistas ou adereços de facilidade supérflua. Encontraremos por certo tudo o que lá foi colocado pelo autor, e muitas outras coisas, se soubermos olhar, esperando com vagar pela revelação das cores intensas, nesse milagre renovado que é o da contemplação reflectida.

Felizes os que se encontram, felizes os que se amam.

Diz-se que os artistas não procuram, acham. Penso que isso acontece com todos nós, e por isso é que a vida está cheia de surpresas, a maior parte delas de difícil ou impossível solução. Mas se uma pintora, Jacqueline Moys, e um pintor, Carel Verlegh, vieram de tão longe e habitam harmoniosamente há vários anos nas serranias de Vale da Silva, Rio de Vide, há que continuar a acreditar, senão em milagres, em factos magníficos e delicadamente preciosos.

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