Crónicas da morte anunciada da pintura (ou não) – IV

 

 

Publicado Diário de Coimbra 6 de Fevereiro de 2001

Conforme refere Lionello Venturi na sua valiosa e conhecida síntese sobre a “História da Crítica de Arte” a teoria de Georg Friedrich Hegel da morte da arte, embora notável, não passa de um erro, mesmo que  tenha persistido como tema, especialmente nos tempos mais recentes caracterizados pela aceleração das transformações de todo o tipo.

É com frequência que o assunto é ventilado e actualizado o prazo limite da arte ou seja, o fim da mesma.

Arthur C. Danto, por exemplo, coloca esse limite no momento em que surge a arte Pop, altura em que os objectos mais comuns do quotidiano, sujeitos à lógica da sua multiplicação pelas vias da produção industrial, invadem o território caracterizador da expressão.

Com a arte Pop as obras tornam-se “impuras”, misturam-se estilos e tipos de arte, cores, formas e materiais. A arte sai da sua redoma. O plástico, os objectos mais comezinhos e até o lixo tornam-se elementos de elaboração artística.

A partir daqui só a filosofia pode tentar mostrar-nos qual é a essência da arte e o que significa o momento em que ela se encontra. Os artistas não são anti-modernos, mas sim pós-modernos. Encontram-se, além disso, reconciliados com o mundo e com o sistema que os cerca.

Aquilo que fora apanágio e elemento legitimador de toda a história da arte – o objecto único, distinto e original – sossobra perante a lógica da multiplicação das imagens. Não é impunemente que o local de laboração artística de Andy Warhol se chama “the factory” (a fábrica). Os grandes museus e inúmeras  galerias por todo o mundo não têm que preocupar-se. Embora o preço das obras não seja por isso menos elevado, não vai haver falta delas. “The factory” trata disso com uma impressionante eficácia, e com recurso sistemático a todos os expedientes do tecnicismo gráfico.

Uma arte auto-consciente e filosófica

Aquilo em que a expressão “fim da arte” se foi tornando, contudo, não tem qualquer relação com o fim  das obras de arte ou fim do exercício das artes. O que morreu não foi a arte, mas sim a possibilidade de organizar históricamente a sua evolução através da ocorrência de fenómenos estilísticos, correntes hegemónicas ou manifestos condutores.

Os artistas do fim da arte não deixam de fazer arte, deixam de fazer história. Passam a contar, aliás, com a responsabilidade acrescida de poderem optar com toda a liberdade e de se poderem afirmar exclusivamente em ordem à sua consciência própria, sem obediências de estilo ou de escola. Contemplam o mundo como querem e dão desse facto um testemunho livre de preconceitos. A arte torna-se portanto auto-consciente, filosófica.

Para quem  saiba das coisas da filosofia, e não é esse o atributo infalível dos pintores, possível será esclarecer a esse respeito os fundamentos da imensa obra de G. F. Hegel, onde será possível descobrir que a arte é considerada como morta quando a verdadeira filosofia nasce.

Não é, contudo, ao nível magníficamente profundo desse tipo de elaborações que se desatam estas breves conversas de pintor. Aquilo que venho aludindo não tem por objectivo uma sistematização metódica e científica das grandes questões da Arte. Apenas me preocupa aquele espaço íntimo e precioso que todos e cada um de nós possa reservar à conservação do nosso próprio olhar como espaço de lucidez e criatividade.

Tal como leio em Robert C. Morgan é essencial que a tarefa do artista seja conduzida por um desejável cepticismo auto-crítico e não pelo desprendimento cínico relativamente à obra feita.

Uma parte substancial do ser-se artista no ciberespaço da actualidade é oferecer uma resistência consequente à programação mediática à qual parecemos irremediavelmente condenados.

O resto é parte integrante daquele território que possamos conquistar dentro de nós e nos afirme como seres capazes de descobrir e dar a conhecer o melhor que a vida tem, nos itinerários da criação e da inteligência sensível.

bibliografia:

“História da Crítica de Arte” de Lionello Venturi, nº 24 da col. Arte e Comunicação, Edições 70

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