Crónicas da morte anunciada da pintura (ou não) – II

 

Publicado Diário de Coimbra 23 de Outubro de 2000

Continuando a discorrer sobre a questão que se coloca em título, abordo hoje um dos muitíssimos temas que flanqueiam esta questão enorme e complexa: a disponibilidade torrencial de imagens e o assalto da informação inútil.
Quando eu era miúdo, comecei por folhear um grande álbum fotografias da primeira guerra mundial e uma pequena colecção de postais ilustrados que o meu avô trouxera dos Estados Unidos, fazia anos. Revisitados vezes sem conta, e enriquecidos pelos comentários do meu avô, foram uma preciosa aquisição da minha memória das coisas.
Passados alguns anos, qual é o estado das coisas quanto à oferta das imagens, para as crianças do fim do Século do cinema e da banda desenhada? Qual é o espaço realmente disponível (e o tempo, de que já falei antes…) para uma contemplação real, fruidora no sentido autêntico do prazer e do saber?
Desde que se levanta um cidadão, até que se deita, é maciça e invasora a presença da mensagem gritada, colorida e luminosamente intensa. Os livros ilustrados (que não há tempo de se folhearem todas as páginas) as revistas nas prateleiras compactas das livrarias (que se torna difícil escolher dentre todas aquela que vamos comprar) e nos ecrãs a variedade de programas (donde até já se inventou uma palavra nova que quer dizer perplexidade: o “zapping”…) são às catadupas.

De internets e futebóis está o inferno cheio

Para alguns dos meus leitores que julgue que este discurso nada tem a ver com o interesse pelas artes, mais uma achega: a urgência de acesso às auto-estradas da informação atira com o cidadão para a frente dos ecrãs da internet, com muito mais facilidade do que entra numa galeria de arte ou visita um monumento antigo, carregado de mensagem e de história. Estão agora a ver?
Uma vez a navegar, vejo-me a braços com o hipertexto e a interactividade. Fecho uma janela e abro outra. Abro aquela e já lá estão mil e uma outras, como alçapões debaixo dos pés de cada um.

Gustave Courbet - Un enterrement à Ornans (1849), Musée d'Orsay / Paris

Gustave Courbet – Un enterrement à Ornans (1849), Musée d’Orsay / Paris

A descarga de uma reprodução de um dos maiores quadros da história da genial pintura (“Um enterro em Ornans”, de Courbet), podendo considerar-se uma imagem de grandes dimensões em termos de internet, comprime a obra duma forma esmagadora e imprópria para qualquer forma de contemplação, e leva para aì um minuto ou dois, uma eternidade para um internauta nervoso. Terminado o “download”, faço o “save” e passo adiante de imediato. Adeus Courbet, que se faz tarde. A obra real, a sério, fica para a próxima visita ao Louvre.
A propósito de coisas sérias, e já que tratamos de genialidades (o génio de Figo, lembram-se?…), falemos de futebol.
Que magníficos, ágeis e imaginativos. Que genialidade e que visão do jogo. Que emoção, que dramatismo e que magnífica generosidade!
– Encaramos o jogo desta tarde com um enorme respeito pelo adversário. Sabemos que é uma equipa recheada de valores. Mas temos a nossa filosofia, etc. etc. etc.
Os discurso é carregado duma dignidade verbal  repetida vezes sem conta, e não explodem com isso as caixas prodigiosas dos televisores.
Somos com efeito reféns duma pantagruélica invasão de imagens sem critério que não seja o da sua enorme facilidade. Reina a confusão no mundo das imagens invasoras: um desfile de modelos é contraposto a uma paveia de mortos enregelados duma guerra num qualquer país do Norte e aos casos picantes do “beautiful people”  sucede-se o rosto parado e exausto dos esfomeados dum país quente do Sul. Detrás de cada imagem, mil imagens, para uma sociedade que enrola os pés na mais tremenda iliteracia e numa absurda falta de imaginação.
Para quem não esteja (ainda…) a ver o que é que tudo isto tem a ver com artes e pinturas, eu cito mais uma recente descoberta de tomo, capaz de por de rastos o portento televisivo remanescente: já ouviram falar do BB? Bertold Brecht? Não caro leitor, eu estou a pensar é no Big Brother!…
De alguns lados do tabuleiro social desfiam-se as tramas e programas da cultura institucional, muito ajeitadas à palmadinha nas costas e à estratégia dos prestígios. Quanta erudição, quanto charme conveniente!…Do outro lado, ao mais fácil alcance da maioria,  essa enchurrada que não tem fim das ideias luminosas dum mau gosto que se afunda, ao que parece, até ao paroxismo da completa idiotia.

Do lado de cá de tudo isso,  um silêncio propício à mais tranquila serenidade.

Vá lá estimado leitor. Recoste-se em silêncio e, se puder, comece a ler a sugestão que vai na receita bibliográfica da “conversa de pintor” de hoje.
Ponha uma música muito boa e não se esqueça de desligar a rádio (dos anúncios) e a televisão (das mil e uma confusões). A internet? Ah, essa, vai dar-lhe geito para mandar vir o livro magnífico, editado em Espanha (6 900 “pêlas”…)

HAEG

Bibliografia:
Historia del arte – Gombrich, Ernest H. – i.s.b.n. 978 848 306 044

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