Uma manhã no café com António Pedro Pita, sobre Abel Salazar

 

Publicado Diário de Coimbra 4 de Fevereiro de 1999

Se eu chegar a viver tanto como viveu Abel Salazar, não me fica neste momento senão um escasso ano de vida. Que poderei então fazer no curto espaço que me sobra? Pintar alguma coisa mais? Pensar um pouco sobre a vida? Viver, simplesmente?

Sempre que leio a biografia de algum artista ou me ponho em contacto com qualquer figura notável sinto esta inexplicável necessidade de medir forças com a existência, avaliando a liberdade que ainda me resta, em comparação relativa dos tempos vividos.

Se o exercício parece inútil ou intimamente cruel, fica a informação sincera de que o faço de forma inevitável, colhendo disso o único benefício de conferir a cada instante de disponibilidade consciente o peso e a gravidade das raras pepitas de oiro que vou garimpando nos regatos do dia a dia.

Abel Salazar, cidadania pensamento e arte

Sentado diante de António Pedro Pita viajo através do pitoresco e da profundidade do curso de vida do notável cidadão, pensador cientista e homem preocupado em decifrar os mistérios da arte e da vida que foi Abel Salazar.

Algumas histórias simples da infância conotadas com a personalidade forte do homem desatam em nós o prazer do riso. Riso que se apaga perante os agravos da vida conhecida, dos choques com uma sociedade marcada pela maldade da estupidez e pelo desprezo pelos seus melhores elementos.

Tendo-se revelado apesar disso o destacado valor do homem e do artista, fica em nós aquela dúvida incomensurável do quanto foi perdido por não ter corrido livremente a força esclarecedora da sua inteligência.

Da bem arrumada biblioteca do amigo com quem converso chega-me uma obra original da autoria de Abel Salazar: “Que é Arte?” colecção Studium, Coimbra, 1961; uma colectânea de valiosos depoimentos da Editorial Inova de 1969 com o título “Presença de Abel Salazar”; um opúsculo com a intervenção de Júlio Pomar na abertura da exposição póstuma de A. S., obra de 1989 da Fundação A.S. de São Mamede de Infesta.

Restando referir o valioso texto de autoria de António Pedro Pita publicado no esmerado catálogo realizado para esta exposição, ficam assim apontadas as pistas mínimas de referenciação do tema de hoje. Tema que tem como ponto de partida a referida mostra, patente ao público no Refeitório de Santa Cruz até 21 de Fevereiro. Local designado pelos Serviços Culturais de Coimbra como Sala da Cidade e que se situa, para quem ainda não saiba, à frente do edifício da PSP, à Praça Oito de Maio.

A perspectiva, metáfora do mundo

As obras expostas documentam momentos de criação que se estendem ao longo de 25 anos, de 1912 (as primeiras aguarelas) ao decurso dos anos vinte (os mais pequenos formatos a óleo) e até à segunda metade dos anos trinta (com um reduzido número de obras muito significativas de maiores dimensões).

De todo o conjunto destacaria por razões muito especiais os valores que estão patentes nas obras situadas nos extremos temporais deste intervalo, as primeiras pelo espírito de síntese e comunicabilidade e as últimas pela diversidade alargada do gesto estético, ao qual não é alheio um evidente sentido de modernidade.

É observável no conjunto exposto uma notável unidade estilístico-formal, muito especialmente no que diz respeito à estrutura cromática, aos motivos escolhidos e a certos critérios de economia de meios expressivos. Como se o discurso, embora eloquente, não necessitasse de ser proferido em altas vozes, e nos fosse dado a ouvir serena e profundamente.

A paleta dos trabalhos apresentados instala-se numa faixa relativamente estreita que vai do branco aos castanhos, passando pelos amarelos, mas no interior da qual são perceptíveis inserções subtis duma vasta gama de cores, sempre sobriamente sujeitas à tonalidade dominante.

A perspectiva, metáfora do espaço envolvente

Nas obras de maiores dimensões o material subjacente desempenha um papel de relevo, como se existisse entre o gesto do artista e a escolha do suporte uma cumplicidade específica, de que a cor e a textura são elementos evidentes.

A espontaneidade e esquematismo da concepção desenhística (que num dos trabalhos nem sequer nos oculta a prévia instalação dos eixos estruturantes da composição) e uma agora acentuada economia de meios concorrem para uma linguagem em que o detalhe, o supérfluo e o vulgar estão radicalmente arredados. O artista, apenas preocupado com o que é essencial, reserva espaços bastante amplos para a linguagem do material e do gesto, que adquirem dessa forma autonomia plástica suficiente para que tal possa ser entendido como direcção apontada ao futuro.

Quanto à engenharia de luz e de perspectiva em evidência nestes trabalhos, melhor se entendem à medida que o observador se vai afastando das obras, havendo um momento em que, mais que um processo técnico se transformam em metáfora do espaço envolvente, numa enfrentamento entre o que é sensível e o que é inteligível ou, como poderia dizer o próprio Abel Salazar, “um encontro do que é desconhecido, por ser do domínio do científico”, com “aquilo que é mistério, por ser do âmbito artístico”.

Uma curiosidade enorme me invade quanto ao restante das obras disponíveis no acervo do artista, que terão existido ou não, e de que não é possível termos conhecimento.

Se fosse o próprio Abel Salazar a organizar a sua exposição e a escolher os originais a revelar, seriam estas as obras a apresentar ao público? Quantas das coisas escondidas ou menos apresentáveis (com aspas) não viriam à tona, e quantos destes trabalhos não ficariam na penumbra dos exercícios menos reveladores?

António Pedro Pita, conferência sobre Abel Salazar

À magnífica legitimidade das perguntas irrespondíveis corresponde o prazer duma chávena de café na companhia do meu interlocutor com quem falei de todos estes assuntos e que me prometeu o ensejo de debater mais alargadamente o tema tão interessante que me apresentou:

– No conjunto de diligências de um artista onde é que está o principal? No apontamento rapidamente concebido, no esboço acidental, no perímetro convencionalmente acabado da tela integralmente preenchida, assinada e datada? No pequeno formato que se olha de perto ou na obra de maiores dimensões que observamos de mais longe?

Ou perguntando de outra maneira:

– Na totalidade do trabalho do artista, onde é que está a obra?

À falta de espaço para uma entrevista cabal sobre tudo o que foi dito à nossa mesa de café, a todos aqui fica o convite para a conferência de António Pedro Pita sobre Abel Salazar, no dia 11 de Fevereiro, 5ª feira, às 18:00 horas, na Casa Municipal da Cultura.

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