Ana Rosmaninho inaugura galeria da Livraria Minerva

Publicado Diário de Coimbra 7 de Dezembro de 1998

Feliz a artista que homenageia o poeta, feliz o poeta cuja palavra é ouvida, feliz o actor que declama.

Felizes aqueles que contemplam e escutam na livraria nova e no novo espaço de arte as coisas que a todos fazem falta, e que produzem – mais que prosperidade ou beleza – o próprio sentido da vida.

Na Rua de Macau número cinquenta e dois, no Bairro Norton de Matos, a partir de agora e para toda a gente.

Motivo: o corpo. Tema profundo: a sua pintura.

O corpo da mulher como pretexto da pintura, ou a pintura como pretexto de si própria? Foi esta a primeira questão que se me pôs, ao olhar a pintura de A.R.

São cerca de vinte obras que, sem margens ou complementos, assumem o corpo da mulher como motivo central e dominante.

Corpo simbólico? Corpo mítico? Corpo histórico evocativo da dilatada tradição dos artistas magistrais, das figuras mitológicas e dos símbolos marmóreos e monumentais? Ou corpo imediato da mulher presente, da mulher que se espreita de longe e se cobiça de perto? Corpo indiscreto, publicamente exposto, publicitário, especulação da sua própria ausência? Ou corpo íntimo, ponte imediata para os destinos interiores, único suporte da felicidade prometida mas fugaz?

Interrogações que se fazem em torno do trabalho de A.R., sem pressa nem temor de chegar ao impossível esclarecimento que, como em qualquer forma de arte, guarda mais abundantemente  em si mesma o largo caminho da dúvida que o perturbante desenlace da certeza.

Poderá alguém dizer, um pouco precipitadamente, que a presença do corpo da mulher invade todo o espaço disponível sobre a tela.

Olhando melhor há outras presenças que com ela concorrem, de forma clara e explícita: a presença da cor e do gesto de expressão plástica, que lhe disputam um espaço autónomo de significação. Autonomia que se afirma nas sobreposições cromáticas, nos acasos de mais um gesto do desenho, de mais um sulco aberto na espessura da tinta, de mais um rasgo final de cor saturada. Rasgos contrastantes: sinalização final do exercício da pintura, elemento energicamente polarizador da paleta de fundo, como uma lágrima, um chamamento, um grito.

Sigamos todos os gestos que pintam

Imaginemos a pintora aplicando sobre a tela inicial tons amaciados e diluídos de cores da terra e com elas fazendo surgir transparências evocativas da carne pálida e íntima.

Imaginemo-la acentuando as formas, sem compromissos de rigor anatómico, respeitando mais a franqueza e a abertura do gesto que a verosimilhança do corpo real.

Membros como ramos de árvore. Corpos como nuvens repousando sobre o azul. Corpos que se alongam deitados, com olhares que não se cruzam com o nosso. Corpos que sobre si mesmo se debruçam no exercício duma auto-contemplação que nos coloca fora, à distância dum silêncio que só a cor aquece, agora cada vez mais expressiva. Corpos numa imobilidade lânguida que se contorcem para além da pose, num arriscado exercício escultórico que questiona o nosso próprio sentido do equilíbrio e a curiosidade infinita de avaliar volumetrias, cingir detalhes e disfrutar contrastes.

A pintora, que também é escultora, atreve-se a confrontar-nos desse modo com aquela área indecifrável do pudor e da explicitação das tendências naturais de que o olhar é cúmplice, umas vezes, e incómodo delator, outras.

Das primeiras cores diluídas aos traços de mais forte sanguinidade e às manchas terrosas de sombreado mais compacto, acrescentam-se as vagas de azul, os amarelos, os verdes e os claros, atingindo valências expressivas através da acumulação de matéria, da sua modulação em espessura e empastamento.

Áreas de cor forte que interferem com o corpo, intrometendo-se, disputando à carne o espaço precioso de quem vê ou afirmando-se por conta própria sem o prejuízo redutor de traços de contorno ou de qualquer outra lógica de ocupação da tela.

Assim se completa a expedição aos reinos da memória onde se expandem os clarões da juventude e as sombras da decadência inevitável.

Ecos imperecíveis do corpo metáfora do mundo, janela única da percepção dos mortais, veículo de todo o prazer e palco de todo o sofrimento.

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