Um lápis e um pedaço de papel bastam para dar início a tanta coisa fantástica!

 

Entrevista ao Diário de Coimbra 24 de Setembro de 1997, na abertura da minha exposição na Casa Municipal de Cultura de Coimbra

Costa Brites, ….inaugura hoje às 18h30 a sua exposição de pin­tura e desenhos.

Tendo dado por concluída a fase (extremamente produtiva) com que promoveu a paisagem urbana de Coimbra, o pintor percorre agora novos rumos estéticos e é o resultado dessa mudança que pode­mos apreciar a partir de hoje (e até dia 26 do próximo mês) na Casa Municipal da Cultura.

Na entrevista que se segue, Costa Brites fala-nos do seu trabalho actual.

Diário de Coimbra – Com esta exposição abre-se uma nova etapa no seu percurso artístico. Que motivos operaram esta mutação e quando teve o seu início?

Costa Brites – A sua pergunta tem interesse para esclarecer as pessoas que apenas me conhecem superficial ou recentemente, atra­vés das inúmeras estampas que têm circulado por Coimbra (entre elas alguns milhares em edições pirata e copianços diversos…) e duma ou outra passagem acidental por expo­sições do ciclo chamada «da cida­de de Coimbra».

Quanto às pessoas que me conhecem melhor, que convivem comigo e partilham – já não digo os meus segredos – mas todas aquelas outras partes de mim (ia a dizer dos meus heterónimos…) esses acharão a coisa mais natural deste mundo e não vão ficar nada surpreendidos. Com efeito, este «imaginário» vive comigo desde que me conheço e em fases ante­riores já foi bastante dado a conhe­cer. Tem estado unicamente à espera de novos momentos de revelação sob a forma de obra estruturada e consequente, o que exige pesquisa e desenvolvimento, muito trabalho e dedicação.

DC – Fale-nos das figuras que povoam as suas últimas telas.

CB – Essa questão daria para uma conversa que quase não tem fim… Um pouco como essas pró­prias figuras, saídas não sei bem donde, duma forma quase sempre inesperada e muitas vezes, por assim dizer, torrencial!… Eu não sei se posso qualificar-me, com propriedade, um surrealista. Aliás, se não assumo inteiramente essa filiação, é apenas pelo facto de me sentir também ligado a outras for­mas de ver o mundo e as coisas, e de não querer ficar apegado a nenhum «ismo» em particular o que, neste momento, não faria nenhum sentido. Os surrealistas, no entanto, trataram muito dos fenómenos da imaginação, explo­raram o subconsciente, o sonho, o fantástico, e os mecanismos da sua revelação, através da associação das ideias, da «escrita automática», etc., a par do enorme desejo de mudar o mundo, o que sempre foram coisas que muito me fasci­naram. Por ter tido acesso a esse tipo de cultura, reconheço existir em mim uma espécie de disponibi­lidade ou abertura do espírito a vozes estranhas, a visões instantâ­neas quase automáticas, que qual­quer pessoa que desenha espontâ­nea e livremente bem conhece.

DC – Há dois termos que sur­gem com uma certa frequência no seu discurso. Um, mais entendível, o termo “desenho”. Outro, aparentemente mais deslocado, o dos «heterónimos». Qual a importância dum, e qual a justi­ficação do outro?

CB – Sem ter a pretensão de lhe «passar um sermão» sobre o cha­mado «acto criador», o que é facto é que ele existe, e depende duma «forma», de «meios de expressão», duma certa técnica, em suma. Há pessoas que se exprimem através de gestos largos, de técnicas elabo­radas que exigem escola. Outras são mais simples, ou intuitivas, porque não tiveram acesso a for­mas adequadas de ensino artístico. Na minha qualidade de português não privilegiado, não comecei por ter acesso às formas mais sofistica­das de técnica artística. Um lápis, um pedaço de papel, dois dos «media» mais simples deste mundo, e pronto, tanto basta para dar início a tanta coisa magnífica e fantástica!

Resumindo portanto, e sem ter de passar por razões transcendentes e pretensiosas, foi essa uma das pri­meiras formas de me conhecer e de me descobrir. Passadas não sei quantos milhares de horas, dese­nhar, para mim, é a coisa mais natu­ral que pode haver. E, certamente, uma das que mais prazer me dá.

Quanto aos heterónimos, adop­tei esse expediente com certa moderação. Não queria que fosse julgado oportunismo «colar-me» à grande figura de Pessoa, para justi­ficar uma vocação (e uma enorme necessidade) de encetar permanen­tes metamorfoses na minha lingua­gem. Daí, como já leio Pessoa pra­ticamente há quarenta anos (nessa altura não era ainda grande moda…) e dado que comecei a falar dos «meus heterónimos» aos meus amigos, acabei por me habi­tuar, o que «veste» magnificamen­te quer o meu gosto por Pessoa (que nem sequer é incondicional…) quer uma tendência, que não reprimo, de renovação incessante…

DC – Como é que pode expli­car, nesse contexto, a firmeza de atitude que manteve durante todo o seu ciclo anterior, que dedicou à paisagem urbana?

CB – Essa questão está muito bem posta e é-me difícil responder por poucas palavras. Repare que no momento exacto em que encerrei o chamado «ciclo da cidade de Coimbra» (que passou por muitas cidades portuguesas, e por várias cidades estrangeiras…), confronta­do com a necessidade de conferir coerência a toda essa questão, tive o cuidado de publicar um livro de dimensões diminutas, mas bastante significativo para mim (chamado «Visualidades»).

O livro valia tanto mais pelo próprio prefácio, de autoria do meu amigo António Pedro Pita, uma pessoa que segue o meu trabalho praticamente há trinta anos. Tanto nessa análise, como noutros textos de sua autoria (especialmente o que escreveu para o catálogo desta minha exposição na Casa Muni­cipal da Cultura) o assunto se

encontra visto duma forma muito difícil de sintetizar, mas de um modo que acho exemplar.

Lateralmente, e friso, lateral­mente, posso apenas dizer que esse ciclo envolveu de facto uma atitu­de de imensa disciplina intelectual, e uma dose enorme de dedicação e investigação em diversas áreas, essencialmente as que dizem respeito às paisagens que se observam de olhos fechados, aquelas que mobilam um mundo construído na mente, e que também serve para questionar o real!

Não sei se o ciclo foi devida­mente compreendido, o futuro o dirá. Mas de qualquer forma penso ter sido uma fase de criatividade muito intensa, que teve o seu encerramento, mas de que não abjuro, nem repudio de forma alguma, por maior que seja a mudança aparentemente, e friso, aparentemente efectuada.

DC – Adiante-nos então as suas expectativas quanto a esta exposição.

CB – Uma coisa muitíssimo difí­cil de delinear, como sabe, a expectativa dos artistas. Penso que, no sentido mais adequado, os artis­tas pretendem apenas prosseguir o

seu trabalho de forma eficaz. E coloco o centro de gravidade do termo no íntimo essencial da obra, como coisa revelada/reveladora.

Sobretudo quando se atinge a minha idade, ou antes disso se o juízo ajuda, começa a poder ver­-se o mundo um pouco distante de nós, e nós nele como uma ima­gem transcendente de nós pró­prios.

Tenho às vezes imensas faltas de paciência com a insensibilida­de dos aparelhos sociais, políticos e outros. Encho-me de raiva, o que me desconcerta. Sinto-me como um cachopo a quem roubaram todos os brinquedos. Com o tempo desenvolvi, no entanto, uma certa impassibilidade feita, senão de conformação, de distan­ciamento, iria dizer, filosófico.

E regresso sempre aos meus ami­gos, à minha família, aos meus desenhos, à cultura, às artes, a todas as coisas que irão de facto ficar para sempre, como os melhores sinais da passagem dos homens por esta vida.

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